28.4.09

correr II

o tempo passa a correr ou somos nós que corremos tanto que o tempo passa mais depressa?

corremos tanto. corremos todos os dias.

para chegar a horas ao trabalho. para apanhar a loja aberta. para conseguir dar conta das sete tarefas a que nos propusemos. para não perder aquele café com o amigo. para lanchar com calma. para não começar a fazer a digestão antes do banho que tem de ser tomado. para chegar ao jantar por que tanto ansiámos. para não sentirmos que não estamos a fazer nada. para aproveitar as oportunidades que nos são dadas e que achamos que não podemos mesmo perder.

corremos demais às vezes.
corremos muito.

sempre gostei mais de caminhar do que de correr.

talvez seja melhor voltar a esse prazer.
talvez não seja preciso correr tanto.

27.3.09

alguém cantando

numa sala de jardim de infância uma educadora canta e duas crianças acompanham à pandeireta. as outras crianças fazem nascer um silêncio absoluto.
é quase tão bom de se ouvir.







Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando ao longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir

Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como quer pra ninguém

A voz, de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda pureza
Da natureza
Onde não ha pecado nem perdão

23.3.09

há dias VI



há dias em que chegamos de grandes viagens e temos de nos dar tempo para desfazer as malas.


6.3.09

burruim

cá em casa andamos a poupar palavras. por isso deixámos de dizer burra e ruim em separado.

3.3.09

a minha avó



quando o mês de março entra no calendário lembro-me sempre da minha avó por ter sido o mês em que ela morreu. hoje, numa conferência, o Daniel Sampaio falava da importância da relação avós-netos e a minha cabeça encheu-se de recordações que me trouxeram uma saudade imensa. então, hoje, passados cinco anos, voltei a ler uma carta que me escrevi a mim, no dia em que ela morreu, para ter a certeza de que não me iria nunca esquecer de como éramos. de como ela era e eu a via. uma carta também para ela, na ânsia de não me estar a despedir.

hoje tenho saudades dela.



"14 Março 2004


Foi hoje embora a minha avó.
Com 94 anos.
Foi juntar-se à terra. Foi juntar-se a Deus.
Entendia-se muito bem com eles.
Da terra sabia muitos segredos. Com Deus tinha um entendimento tão grande que soube esperar e, finalmente, pedir-he que a juntasse a Si - começava já a ficar zangada com Ele por nunca mais a ouvir.
A minha avó sabia muitas coisas. Sabia provérbios que batiam sempre certo com a realidade. Sabia ler. Sabia o tempo que ia fazer. Sabia falar com as plantas. Sabia como fazer as galinhas sentirem-se umas rainhas.
A minha avó limpava os caixotes de lixo e contava as moscas que matava.
A minha avó rezava alto e pedia protecção para nós todos e para os seus amigos.
A minha avó levava-me à missa e, quando não pode mais ir, ouvia-a cada vez mais alto na televisão, porque os seus ouvidos ouviam cada vez menos.
A minha avó sabia muitas palavras e dizia "bou buer um bucuado d´áuga".
A minha avó sabia todos os medicamentos que tinha que tomar e era ela quem os contava e trazia para a mesa.
Fez de mim sua cabeleireira quando, ao não poder mais fazer o seu carrapito sozinha, me pediu que lhe cortasse o cabelo curtinho.
Fez de mim seu boletim informativo quando deixou de conseguir ler o jornal e me pedia que o fizesse.
A minha avó teve graças para dizer até ao último momento.
A minha avó era muito teimosa, muito casmurra. Viveu até ao fim. Tratou de si até o coração lhe pedir "Bina, deixa-me descansar."
Sabia o que tinha deixado por fazer e disse algumas vezes que "o milho ficou por debulhar em casa da Tia Clara."
A minha avó ralhava, era intransigente, mandona. Tinha muitas zangas com ela. Ouvia conversas. Criticava os meus amigos. Falava das horas a que eu chegava. Mas eu sei que gostava muito de mim e eu sei que também gostava muito dela. Pena os silêncios. Pena as horas não aproveitadas. Os dias não aproveitados.
A minha avó ensinou-me a coragem de viver e de lutar e só hoje é que eu percebi. Nos seus últimos dias no hospital, recusou-se a ter mais tubos e máscaras. "Eu estou melhor sem isto" - dizia ela da máscara. Amarraram-lhe as mãos e os pés. À minha avó, que quis andar sempre e deixar o tempo passar no seu corpo. Mas, na falta da sua integridade, tenho a certeza que ela decidiu a sua hora, como sempre decidiu tudo na sua vida.
Viveu os últimos anos em casa sem enlouquecer. Sempre ligada à vida terrena e aos dias que passavam.
Despedi-me dela no dia 9 de março.
Disse-me "Vai com Deus" e, pela primeira vez, parecendo que adivinhava, respondi-lhe "Fique com Deus, avó"
Vem amanhã.
Não viu o Lombomeão pela última vez. A sua terra. A sua vida.
A minha avó foi embora num dia de sol quentinho. Num daqueles dias em que ela gostava de se sentar no pátio e ficar a olhar, por baixo do seu chapéu, o quintal a que se dedicou sempre.
Apertou-me a mão com força a última vez que a vi e procurou o meu olhar. Explicou-me exactamente o que se deve fazer para que as plantas não passem sede. E ficou a olhar para mim. Despedimo-nos assim com o olhar uma na outra.
Avozinha, descansa agora em paz. Não sejas tão teimosa aí desse lado. Trata bem as pessoas como tu sabes fazer. Conversa com a Alzira e manda-lhe beijos meus. Não te zangues por não te termos contado do tio João... queríamos ter-te mais um bocadinho.
Prometo-te, avó, que vou tentar tratar da nossa família.
Um beijo muito grande até à eternidade."

26.2.09

Road To Nowhere




Well we know where we're going
But we don't know where we've been
And we know what we're knowing
But we can't say what we've seen
And we're not little children
And we know what we want
And the future is certain
Give us time to work it out

Ye-ah

We're on a road to nowhere
Come on inside
Taking that ride to nowhere
We'll take that ride

I'm feeling okay this morning
And you know
We're on the road to paradise
Here we go, here we go

We're on a ride to nowhere
Come on inside
Taking that ride to nowhere
We'll take that ride

Maybe you wonder where you are
I don't care
Here is where time is on our side
Take you there, take you there

We're on a road to nowhere (ha! ha!)
We're on a road to nowhere (ha! ha!)
We're on a road to nowhere (ha! ha!)

There's a city in my mind
Come along and take that ride
And it's all right, baby, it's all right

And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right

Would you like to come along
You can help me sing this song
And it's all right, baby, it's all right

They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right

There's a city in my mind
Come along and take that ride
And it's all right, baby, it's all right

And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right

And would you like to come along
You can help me sing this song
And it's all right, baby, it's all right

They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right

We're on a road to nowhere (hey!)
We're on a road to nowhere (heugh!)
We're on a road to nowhere (ha! ha!)

We're on a road to nowhere


Talking Heads

[ from the album "Little Creatures" (1985) ]

24.2.09




hoje soube-me a tanto
portanto
hoje soube-me a pouco



11.2.09

querinda

cá em casa andamos a poupar palavras. por isso deixámos de dizer querida e linda em separado.

linkar para não plagiar

já há muito tempo que o meu irmão sabe dizer coisas que eu sinto mas que não sei explicar. para não o plagiar, linko-o.

9.2.09

correr

se temos um encontro marcado, subimos a rua a correr para acompanhar o ritmo do coração ou porque está a chover?

8.2.09

ilhas

se formos mesmo ilhas, como alguém disse alguma vez, então que saibamos criar maneira de nos sentirmos abraçados ainda que nunca nos toquemos. que desenhemos linhas invisíveis que nos façam sentir o calor, a humidade, o relevo de cada uma. que haja sempre uma forma de cada uma saber a história verdadeira da outra. que, mesmo no meio dos dias enublados, consigamos sentir que as outras lá estão. se formos mesmo ilhas que aproveitemos esse espaço que nos separa das outras ilhas para nos vermos e vermos os outras ilhas com a distância que é preciso para não nos confundirmos umas com as outras e nos conseguirmos apreciar. se formos mesmo ilhas, cuidemos com carinho da vegetação, das danças e pratos típicos, das aldeias, vilas e cidades que criamos. tenhamos cuidado com o turismo para não perdermos a naturalidade e a espontaneidade das nossas praias e montanhas e dos percursos entre elas. se formos mesmo ilhas, que façamos festas no verão e nos protejamos das tempestades de inverno. e caso uma delas nos derrube as àrvores e as casas, que aproveitemos a força da natureza para nos reconstruirmos e não deixarmos de ser uma ilha.

3.2.09

o vento enfim parou já mal o vejo pois sobre o tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece



sérgio godinho

20.1.09

posse

a minha casa. o meu carro. o meu trabalho. os meus livros. a minha música favorita. a minha escova de dentes. os meus pais. o meu irmão. os meus amigos. os meus amores. os meus meninos. a minha escola. as minhas colegas. os meus vizinhos. os meus passeios. as minhas memórias. os meus desejos. possuimos tudo o que nos rodeia. incrível. fazemos de tudo propriedade privada. queremos que as coisas sejam nossas. que nos perteçam para a nossa vida ser cheia.

e nem tudo é nosso, não. o que está à nossa volta pertence a si mesmo. tem vida própria. e é uma liberdade muito grande aceitar isto.

14.1.09

dentes

"tenho um dente a cair" - dizia-me hoje a C. com cinco anos.
"e eu também..." - pensei eu com trinta.

11.1.09

imagens

o sol a pôr-se na esplanada da Graça e a lua a nascer por entre os prédios do largo da Graça.
os dois muito gordos e grandes e cor de laranja.
quase a conseguirem ver-se.

4.1.09

carta II

querida amiga,

entrei agora no teu quarto e voltei a reparar nos cantos onde costumas acumular tudo e mais alguma coisa.
estás mais uma vez de parabéns!
pela decisão que tomaste de começar o ano com tudo arrumado e, para além disso, com coisas deitadas fora. sei que houve dias em que o fizeste a martelo. sei que não ficaste muito contente com o resultado e esperavas que a limpeza fosse maior, mas está muito bem. está realmente bem.


um abraço apertado.

p.s - podias só dar um jeitinho na mesinha de cabeceira. tem para lá umas coisas que dão cabo da cabeça de qualquer pessoa que queira limpar o pó.

3.1.09

top five

inventado para distinguir os melhores em diversas categorias,
o top five é um pequeno brinde a alguns momentos da nossa vida.
o top five é reviver e rever imagens.
é procurar memórias boas ou más.
é eleger momentos, objectos, pessoas.
levado ao extremo, é procurar o essencial.
o top five é um fim de tarde.
o top five, feito em conjunto, cria cumplicidade, proximidade, amizade.
pode transformar-se num top ten, num top three.
numa conversa.
partilhar um top five pode criar um novo momento de top five.
a todos os que fizeram um top five comigo ou fizeram parte dos momentos de top five,
um brinde gigante.
feliz 2009!


15.12.08

um pequeno corpo grande

desenharam-me a silhueta num papel de cenário. com mil cuidados, garantindo que iria ficar o mais perfeito e parecido possível com aquilo que sou. enquanto a mão contornava o meu perfil, pensava em como seria o meu corpo ali marcado, deitado. levantei-me cheia de expectativas.
"oh!"
surpreendentemente, apesar de toda a vida ter sido assim, senti-me incrivelmente baixinha. pela primeira vez, olhei-me de cima, deitada no chão e percebi o espaço que ocupo quando me deito. esta sensação foi espantosa porque me deu a sensação de que sou maior do que o meu espaço corporal. de que o meu corpo tem uma projecção maior do que aquela que acaba aqui no limite da minha pele. que afinal me sinto grande, apesar de pequena.
devíamos todos, de tempos a tempos, ter esta maravilhosa sensação de que somos maiores do que pensamos, de que ocupamos mais espaço do que o nosso corpo limita.
"ando sem tempanada e com tudo empanado"
(ao jantar com a x.)

26.11.08

o natal está a chegar

todos os anos gosto de ir ver as luzes de natal à baixa de lisboa. não é qualquer tipo de tradição de infância, mas é um gosto que tenho. as luzes podem tornar-se um elemento muito bonito numa cidade. há anos em que fico fascinada com algumas iluminações. pela maneira como complentam os edifícios, como se integram no espaço de praça, rua, avenida. como marcam o perfil das copas e dos troncos das àrvores. como dão brilho ao que sempre lá está.

este ano ouvi dizer que já tinham acendido as luzes e decidi, no fim do dia, dar a volta pelo outro lado e passar por lá. não tinha grandes expectativas porque nos últimos anos não me têm surpreendido muito... mas não estava à espera do terror que me esperava na praça do comércio e no rossio. não consigo descrever o que vi. um monte de elementos desconexos de várias instituições e um verdadeiro mamarracho no centro da praça que não se percebe se é a casa do duendes do pai natal ou uma loja de prendas.


tenho saudades da cidade bem iluminada. simples, mas bonita.
os grandes volumes não me encantam. e não me é importante saber quem os promoveu. até é despublicidade.

25.11.08

frriiiioo

um friozinho entra pelos ossos, enregela os pés, as mãos e começa a tentar propagar-se pelo corpo. a falta de luvas leva as mãos aos bolsos, as meias insuficientes levam os pés a abanar. mas o frio continua e o corpo não resiste a encolher-se. vem o autocarro salvar-nos de uma situaão que parece impossível de sustentar por mais tempo. e quanto tempo se aguentaria ali?

6.11.08

a cabeça cansada não deixa de pensar que o coração está leve.
o coração leve tenta dizer à cabeça cansada que valeu a pena o dia e merece agora o descanso.
ambos dizem ao sistema respiratório que funcione calmamente e repire fundo.

5.11.08

há dias V



há dias em que o mundo se organiza de uma outra maneira

e voltamos a acreditar que pode sempre ser melhor.

2.11.08

há dias IV

"Há dias em que me levanto com uma esperança demencial, momentos em que sinto que as possibilidades de uma vida mais humana estão ao alcance das nossas mãos. Hoje é um desses dias."

Ernesto Sabato, Resistir

17.10.08

Irritações

Descobri que quando estamos proibidos de determinados hábitos que temos e gostamos e nos servem, muitas vezes, de compensação no fim de um dia de trabalho, no fim de uma reunião tensa, num momento de solidão, num momento de convívio ou qualquer outro em que busquemos o prazer... Descobri que, quando estamos proibidos dessas coisas, o melhor é assumirmos para nós mesmos e para os outros que se está irritado e, sim, não havia razão para tanta cabeça perdida e tanta falsa argumentação, mas ainda não se arranjou uma outra solução que não elevar a voz e fazer movimentos frenéticos para compensar essas coisas de que estamos proibidos e provavelmente nos acalmariam e, por favor, que nos desculpem.

15.10.08

passear com as crianças

da minha vida fazem parte muitas crianças. aquelas com quem trabalho todos os dias, aquelas com quem já trabalhei, os primos, os "sobrinhos", aquelas que encontro por aí, a minha própria infância cheia de outras crianças. faz parte dessa vida de criança uma vontade louca de movimento. de correr. de descobrir o que existe por aí . de fazer experiências. de ir, aos poucos, saindo do colo e desatar a andar e a ver. faz parte dessa vida o "fugir", o que querer saber o que está para além, mesmo que alguém tenha dito para não ir. faz parte a curiosidade. faz parte não querer andar sempre ao pé dos pais e ir ver o que está na outra prateleira do supermercado. e faz parte da vida dos adultos que as têm consigo usar o corpo - braços, pernas, tronco, cabeça, voz - para as fazer voltar quando é necessário. para encorajar as descobertas. para as fazer sentir que, mesmo indo mais além, onde não queriam que elas fossem, o seu corpo está sempre lá para as receber. faz parte uma confiança que vai nascendo, que se vai conquistando, que ambos os mundos estão lá. vai-se mais além mas não se foge. deixa-se ir, mas não se desliga. uma distância certa entre os corpos.
como é que um braço ou uma voz não chegam para passear com uma criança?
numa livraria de um centro comercial, um fina senhora passeava hoje a sua filha como quem passeia o seu cão. o meu vizinho do segundo andar tem uma trela fisionomicamente igual à que a menina trazia à volta do tronco. os meus olhos não conseguiam largar aquela imagem. uma trela... não sei se é este o termo usado para aquele objecto que ligava a senhora à menina, mas é o termo que consigo usar por ter um vizinho que usa um objecto igual para o seu cão. quando a menina se voltou de costas, apareceu a marca que produziu o objecto. pré-natal. a famosa marca de produtos para a infância.
a minha cabeça veio embora com essa imagem gravada. uma imensidão de sentimentos revoltos. a certeza de que o corpo tem de chegar para esta educação de passear com os filhos. com os filhos. com as crianças. não se passeiam as crianças. passeia-se com elas. dá-se-lhes as mãos. dá-se-lhes o colo. dá-se o corpo. dá-se-lhes a oportunidade de sentir que é bom tocar nos outros e senti-los por perto. dá-se-lhes a certeza que não importa onde estejam, é seguro, porque também lá estamos - com os nossos braços para as salvar de perigos, com a nossa voz para as chamar se forem longe demais.
não resisti a procurar pré-natal no google. um site muito bem organizado com imensos artigos sobre a infância que, com certeza, hão-de ajudar muitas mães em apuros. não encontrei as trelas, mas encontrei a filosofia. deu-me voltas ao estômago pensar que uma cambada de gente anda a ter reuniões para decidir que o melhor para solucionar os problemas das mães que não conseguem passear com os seus filhos é criar um objecto que as faça passeá-los como suas donas.
a pré-natal esteve em baixa.
aquela senhora esteve baixíssima.
e eu agradeci muito ter nascido na província e terem-me deixado brincar na rua, ir sozinha da escola para a hora de almoço. terem passeado comigo.
os tempos talvez estejam diferentes, mas havemos de lutar para podermos continuar a passear com as crianças.

8.10.08

hora

há uma hora do dia caótica para conduzir em lisboa. hora em que dá vontade de atropelar tudo o que aparece à frente e ir directamente aos senhores responsáveis e passar-lhes o carro para as mãos e dizer-lhes: "ora experimente lá ir para casa sem ficar com os nervos em franja!"

à hora do grande regresso a casa, a partir das seis e até para além das sete e meia, hora de lusco-fusco e anoitecer, os candeeiros da rua estão ainda apagados na maior parte das ruas do trajecto que faço ao fim do dia.
é uma aventura regressar a casa.
as ruas mais escuras ficam cheias de sombras estranhas que não se sabe se é uma bicicleta que aí vem, um peão que passeia o cão ou uma betoneira mal estacionada. os olhos deixam-se ofuscar com os carros da frente e, na falta de outra luz que os faça recuperar, passam os metros seguintes numa verdadeira obra de perspicácia a tentar voltar a ver no escuro, evitando feridos e amolgadelas e tentando distinguir se, de facto, é uma bcicleta, um cão ou uma betoneira. o corpo começa a ficar enrigecido pelo esforço acrescido da cabeça e dos olhos e pelo medo de não estar a ver tudo nem a medir bem os espaços. os carros mal estacionados que, à luz do dia são aborrecidos, tornam-se insuportáveis. os quatro piscas são um desespero de luz. o corpo, enrigecido como está, demora mais a fazer manobras. procurar estacionamento, se estiver difícil, torna-se desesperante. a boca começa a ganhar vontade de dizer palavrões...
o que vale é que, nesta altura, chego a casa.
uf!
é uma hora pequena, mas que se torna imensamente longa.

vou informar os responsáveis que, apesar dos relógios universais não o saberem, já saímos do verão e os dias estão mais pequenos e os candeeiros da rua deviam acender mais cedo. evita-se assim as más disposições de fim de dia.
(que coisa! será que eles não andam de carro a esta hora?)

30.9.08

Preciso Me Encontrar




Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar,
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar

Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Cartola

22.9.08

glória, vitória, felicidade, maria da luz, prazeres. os pais das mulheres com estes nomes devem ser pessoas optimistas, que crêem no mundo e na vida. já os pais da piedade e da maria das dores...

17.9.08

verões

há verões que são mais compridos que outros e verões que não queremos que acabem nunca e verões que já deviam ter acabado e verões que nos enchem ou preenchem o coração e verões assim e assado e verões em que chove e verões em que faz um calor insuportável e verões de praia e verões de serra e verões com escaldões e verões com bronzeados lindos de morrer e verões com caracóis e verões com cervejinhas e verões sem piadinha nenhuma e verões com aquele pôr do sol e verões que mais valia não terem acontecido e verões em que nos apaixonamos loucamente e verões que nem são bem verões... verões... verões... verões... verões
há verões que são assim um turbilhão.