30.9.08

Preciso Me Encontrar




Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar,
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar

Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Cartola

22.9.08

glória, vitória, felicidade, maria da luz, prazeres. os pais das mulheres com estes nomes devem ser pessoas optimistas, que crêem no mundo e na vida. já os pais da piedade e da maria das dores...

17.9.08

verões

há verões que são mais compridos que outros e verões que não queremos que acabem nunca e verões que já deviam ter acabado e verões que nos enchem ou preenchem o coração e verões assim e assado e verões em que chove e verões em que faz um calor insuportável e verões de praia e verões de serra e verões com escaldões e verões com bronzeados lindos de morrer e verões com caracóis e verões com cervejinhas e verões sem piadinha nenhuma e verões com aquele pôr do sol e verões que mais valia não terem acontecido e verões em que nos apaixonamos loucamente e verões que nem são bem verões... verões... verões... verões... verões
há verões que são assim um turbilhão.

12.8.08

há dias III

há dias em que os tempos se cruzam
e se tornam num novo tempo
e nos fazem sentir saudades
de ontem e de anteontem e de tresantontem.
Miguel Esteves Cardoso

6.8.08

relíquia...


...qualquer coisa, muito preciosa, que se guarda com carinho e faz parte de um passado.
...qualquer coisa que, em tempos, se viveu intensamente e quase se acreditou que podia alterar-nos o percurso de vida.
...qualquer coisa que se desenterra um dia e nos traz memórias de dias em cheio e nos embaraça por nos ser relíquia. mas que queremos que o continue a ser e que fique guardada no baú para lá irmos de vez em quando recordar as emoções de outras alturas.
aqui, uma das relíquias dos meus 12 anos, partilhada há poucos dias, quase com a sensação de que, sim, às vezes o tempo volta atrás.

24.7.08

idiomas

sempre me adaptei muito bem às línguas dos países que visito.
hoje, em barcelona, consegui a verdadeira frase poliglota...

"yo hablo italiano, español e português tuto mistorato."

o mais importante é que me perceberam.

22.7.08





tempos de enfado...





17.7.08


o dia em que trouxe ao meu irmão uma t-shirt vinda directamente da barriga da minha mãe.
É loucura
É loucura estarmos todos
Juntos na mesma fogueira que arde
É loucura a ternura, este sonho, esta tarde
É loucura estarmos juntos
Todos à volta da mesma alegria
É loucura a ternura, esta noite, este dia
Ninguém sabe o que o sonho alcança
Quando se vive amando
Ninguém sabe o que sonha a criança
Quando sorri sonhando
Quem nos dera que nunca surgisse
Esta tristeza de hoje
Quem nos dera que nunca fugisse
Esta fogueira que foge
Algum dia na vida amanhã
Quando a rotina venha
Não nos falte esta chama, esta irmã
Esta fogueira, esta lenha.



Hélder Ribeiro

16.7.08

tempos sem tempinho nenhum...

1.7.08

dos que moram na rua

tenho desde sempre uma relação indefinida com as pessoas que moram na rua. um misto de curiosidade pela vida que têm e de necessidade de me manter afastada. há umas que me suscitam uma atenção especial e que ficam gravadas com algum carinho. que se tornam um equilíbrio no meu dia-a-dia e se transformam em parte integante da minha passagem pelas ruas quotidianas.
em aveiro, havia um senhor que anunciava o fim do mês e arranjava aí a solução para o seu pedido de esmola. eu e o meu pai fartávamo-nos de rir quando ele vinha com a sua lengalenga "é fim do mês, está na hora de pagar." fazia-se acompanhar de um caderno e um lápis na orelha que passava para a mão durante a lengalenga. vestia-se com um velho blazer e uma gravata e era careca. ele fazia andar o tempo. ele trazia a rotina do tempo.
em évora, havia um senhor de longas barbas brancas que falava sozinho e lia o jornal na praça do giraldo. alguns dos meus amigos cumprimentavam-no como amigo também. era sempre gentil com as pessoas e tinha um aspecto bonito.
em lisboa, perto da sé havia um rapaz/senhor que parecia um homem estátua. estava sempre sentado em cima de cartões velhos, vestia umas calças puxadas até cima com suspensórios e cobria a cabeça com chapéus, gorros e boinas. estava sempre imóvel, com uma perna dobrada na qual encostava o cotovelo para poder esticar a mão em forma de pedido. o seu olhar estava sempre mão. e eu via-o sempre nesta posição.
hoje, vi um novo homem. destes que me despertam a curiosidade.
num dia de calor como o de hoje, ele estava deitado na entrada de um prédio, vestido com manga comprida e cobertores a tapá-lo. tinha à beira da sua cabeça uma pilha de livros antigos e os olhos presos ao livro que tinha aberto nas mãos. estava muito sujo, o que normalmente me leva a não conseguir reparar nos pormenores, mas os livros fizeram demorar a minha passagem. fiquei curiosa com os títulos. espero que ele lá esteja quando lá voltar para ver de soslaio os títulos.

30.6.08

fins de tarde

servem para aconchegarmos o dia.
para termos tempo de parar e pensar.
para revivermos o que já passou, saboreando ou deixando na beirinha do prato, e projectarmos o que queremos viver.
criam uma abertura para nos encontrarmos e nos falarmos.
muitas vezes, servem para termos ideias luminosas, curiosas, engenhosas.
servem para o silêncio e a contemplação.
os fins de tarde são imprescindíveis e devem ser tratados com bastante respeito e atenção.
desprezar um fim de tarde é um erro desmedido.
podemos até pensar que o recuperamos no dia seguinte, mas o que passou desprezado está já perdido e é irrecuperável.

os fins de tarde podem e devem ser vividos de diversas formas.
não há regras.
cada um constrói os seus próprios fins de tarde.
a única obrigatoriedade dos fins de tarde
é aproveitar para se
estar de bem com a vida.

21.6.08

"a pessoa de que vocês falam nem pareço ser eu. porque me fica tanto por fazer. sei que outros o poderão fazer, mas eu deixo por fazer. estou-vos muito agradecida pelas palavras."
Matilde Rosa Araújo, ontem, numa homenagem na SPA, ao fazer 87 anos.

18.6.08


estou aqui
já estava aqui
e vou estar aqui

às vezes vou ali
outras vezes acolá
saio
ando por aí


estou aqui a andar por aí



11.6.08

nos dias em que o cansaço nos vence, em que as nossas palavras saem atordoadas, quase mudas, em que parece que ninguém compreendeu as nossas intenções e definitivamente nos sentimos no sítio errado, comamos caracóis com os amigos e brindemos às nossas vitórias pessoais. digamos alguns palavrões para amainar as zangas, falemos da vitória de portugal e de como a metereologia é falível. lutemos para que o cansaço desapareça e a cabeça se sinta assim mais desanuviada.
há dias do caraças!


29.5.08

não-primavera

quando ainda dormimos com um cobertor por cima do edredon, não estamos em plena primavera, pois não?
quando o frio nos demove de ir à feira do livro, não estamos em plena primavera, pois não?
quando as t-shirts ainda se escondem debaixo de uma camisolinha e um blusão, não estamos em plena primavera, pois não?
quando não sentimos o calor a tocar-nos a pele um dia inteiro durante quinze dias, não estamos em plena primavera, pois não?
quando abrimos a persiana de manhã e está um sol bonito e saímos à rua e já enublou, não estamos em plena primavera, pois não?
quando não conseguimos usufruir das esplanadas, dos jardins e dos miradouros, não estamos em plena primavera, pois não?
quando os corpos ainda se aconchegam a si próprios ao caminhar, não estamos na primavera, pois não?
quando nos começamos a aborrecer de estar em casa, não estamos em plena primavera, pois não?

["não, amiga. este ano a primavera existe aos bocadinhos." ]

que aborrecimento.

25.5.08

medo do escuro


sempre tive um medo terrível do escuro. no escuro viviam mãos atrás de paredes ou debaixo de camas, prontas a agarrar-me nas pernas e nos braços, mal sentissem a minha passagem. no escuro viviam sons irreconhecíveis que se transformavam em monstros ameaçadores. no escuro vivia um desconhecido muito grande que me assustava e que eu tentava nunca conhecer. tinha dele uma imagem tenebrosa.
o meu corpo ganhava uma vida própria. ou corria desalmadamente em direcção à luz e só aí podia respirar ou tornava-se rígido incapaz de se movimentar.
havia dois pequenos momentos que se tornavam para mim uma verdadeira aventura contra o medo. subir ao sótão para arrumar os brinquedos que tinha deixado desarrumados do dia e ir despejar os restos do jantar no galinheiro. eram para mim verdadeiras lutas contra a fantasia. as escadas tornavam-se gigantes. demorava muito tempo a subi-las, com o coração numa corrida louca, as pernas tremeliques e os olhos presos naquele rectângulo preto que me esperava lá em cima. os olhos não podiam sair dali não fosse eu ser apanhada de surpresa pelo tal desconhecido ou pelos seus cúmplices. quando lá chegava o corpo acelarava os movimentos e a mão precipitava-se para o interruptor. com luz era diferente. o medo ainda tinha espaço, mas eu podia ver tudo. quando acabava a tarefa de arrumação, apagava as luzes e corria a toda a velocidade, escadas abaixo, até encontrar alguém. a minha professora da escola dizia que eu devia era subir as escadas a fazer muito barulho com os pés, para assustar o escuro e os monstros que lá morassem. com o medo, iam embora de certeza. tentei esta estratégia algumas vezes, mas a verdade é que o medo continuava a sobrepôr-se à certeza de que eles iriam embora com o som dos meus pés. já com as galinhas era diferente. havia apenas uma luz no pátio e, para chegar ao galinheiro, tinha de atravessar o quintal, cheio de frutas e hortaliças prontas a atacar-me ou a esconder animais carnívoros esfaimados. nesse percurso corria. corria o mais depressa que conseguia. tenho ideia de sempre ter desempenhado mal esta tarefa. a cabeça quase não pensava nela porque estava ocupada a fazer correr o corpo completamente imerso no medo do escuro.

a luz do corredor ficou acesa até muito tarde para eu dormir e, quando ganhei vergonha, passei a garantir que não era a última a deitar-me para, ao menos, sentir que havia luz lá fora.
no quarto, à noite, deixava apenas o nariz e os olhos de fora dos cobertores. e ficava muito quieta quando um ruído disparava o medo em mim. a respiração parava, mexia os olhos de um lado para o outro para tentar ver na escuridão e o corpo ficava incrivelmente semelhante a uma pedra.


eram sensações tão fortes. todo o meu corpo e a minha cabeça se concentravam no escuro, nas imensas possibilidades assustadoras que podiam aparecer repentinamente. tenho uma memória muito física das corridas e do som do coração.


curiosamente o medo não cresceu como eu. foi-se tornando pequenino. foi deixando de inventar monstros e outros seres que tais. foi perdendo a sua força. e eu fui criando novas formas de o pôr a correr a ele.

mas sei que ele ainda cá mora e que está sempre pronto a fazer-me correr ou petrificar-me.
(ontem acendi todas a luzes de casa)

17.5.08

De Paris com Amor

"Não conto o tempo, não discuto o tempo, não registo o tempo, não brinco com o tempo, não abraço o tempo, não contesto o tempo, não trato mal o tempo, não diabolizo o tempo. Agarro o tempo que o tempo me oferece, falo no tempo que faço meu, dialogo com os tempos que agendo, não escolho tempos, ofereço-me ao tempo para que o tempo me permita ter tempo para disponibilizar o tempo necessário para enviar esta mensagem e outras. Espero que a recebas dentro do teu tempo. Que tal o tempo por aí?"

Alcino Cartaxo, 16 de Maio de 2008
quem sai aos seus não degenera

13.5.08

Eusébio

Não sei quase nada sobre o Eusébio nem sobre a sua vida futebolística. Tenho imagens dele a preto e branco a correr pelo campo e de uma toalha e um zumbido nos ouvidos de que ele foi grande jogador e é grande benfiquista. Fora isso, não tenho uma opinião formada sobre ele nesta área.
No entanto, hoje, numa grande fila de trânsito, daquelas em que é difícil uma pessoa encaixar o seu carro se não for bruta, tive o privilégio de ter sido convidada a entrar na fila pelo próprio. Ele mesmo, Eusébio, ao fim de alguns carros de espera e algumas tentativas, assentiu com a cabeça a minha entrada. Descobri o Eusébio condutor. A minha opinião sobre este Eusébio é bem mais segura que a do futebolista. Sim, ele é um bom automobilista de cidade.

10.5.08

bolinhos da sorte

"Follow your aim, self-consciousness will show you how."
"Others will provide you a wonderful journey."

6.5.08

experiência de desculpa

peço a todos os leitores as minhas desculpas pelo amarelo e o bold repentinos do último post.
foi experiência. só agora a testei. negativo!

5.5.08

de vez em quando apetece-me chover.
quando as nuvens são pesadas e não há meio de abrirem definitivamente, fica aquele tempo trovoada dentro de mim e, então, apetece-me mesmo chover. apetece-me chover para mandar as nuvens embora. apetece-me chover para sentir o cheiro da terra molhada e para a natureza desatar a crescer. apetece-me chover para as ideias serem mais claras à luz do sol e a cabeça ter mais espaço para mais ideias. apetece-me chover para desanuviar o céu e eu deixar de me sentir abafada.
choverei?

25.4.08

somos tantos e às tantas de tantos sermos não conseguimos entender-nos.

24.4.08

tempálmoçar

há palavras que se unem para criar outras palavras, em que o mesmo sentido continua a existir num outro som. é fabuloso. dá conversas maravilhosas e serões de puro riso.

ele não tem tempálmoçar, coitado.
e elas as duas riem-se.

18.4.08

carta

querida amiga,

vejo que tens o quarto arrumado há duas semanas, que tens feito a cama todos os dias e não fica muita roupa acumulada lá no cantinho. também já reparei que não tens deixado os sapatos debaixo da cama, nem as meias por dobrar - e bem sei que não gostas nada desta tarefa.
estou muito orgulhosa.
era de continuar, se conseguisses resistir ao teu gosto pelo caos e à tua preguiça para a arrumação doméstica.

parabéns!

17.4.08

chove

porque é que sempre que chove a cântaros há pessoas a dizer que é o fim do mundo?
chove sim. chove muito. chove a bandeiras despregadas. chove como poucos. está uma chuva nada molha tolos. molha todos. molha mesmo. de certeza que toda a gente hoje se molhou - um bocadinho que fosse. não pára. começou às três e meia da tarde e ainda não parou. e não vai parar segundo o instituto de meterologia. também está vento. enerva um bocado. tentar caminhar e segurar no guarda-chuva e proteger um amigo e lidar com a calçada portuguesa e os jactos que nos atacam as pernas das poças onde deslizam os condutores. e conduzir também é enervante porque os vidros embaciam e os limpa-pára-brisas não dão vazão aos litros de água que lhes caem em cima e molha-se sem querer o peão que também já lida com a sua enervação....
mas, vá lá ver, o mundo não vai acabar. não é o fim do mundo. é só um dia chato. um dia de estar em casa - ainda que se não possa. "em abril, águas mil", não é? não sabemos já todos isso?
voltemos a gostar de chapinhar nas poças e é só chegar a casa e tomar um banho quente.

15.4.08

"é com o tempo que os tempos se encontram"

13.4.08

buscas

busca-se a simplicidade. busca-se a descomplicação. busca-se o simples prazer de ir indo. de ver e cheirar e deixar o mundo entrar e percorrer o corpo interior. busca-se a verdade. a mais pura honestidade connosco próprios. busca-se as soleiras das portas e as varandas com vista desafogada para conversas sobre a vida. sobre a vida mundana e a espiritual. busca-se o outro. busca-se a partilha da vida. busca-se a calma no fim do dia. busca-se o caminho diferente todos os dias. busca-se o amor. busca-se um lugar ao sol no mundo, onde chova de vez em quando para se sentir o cheiro da terra molhada.