23.1.13

caminho

aquela floresta tinha sido dura de atravessar
mas o coração tinha finalmente acalmado 
e a luz da lua 
naquela clareira
trazia-lhe a possibilidade de adormecer sossegada

amanhã continuaria o caminho
por agora respirava



21.1.13

começa hoje

1500 peças
60x80

15.1.13

em 2038

terei 60 anos. feitos em julho, como sempre.

onde estarei?
em que casa morarei?
com quem?
serei uma boa vizinha?
que terá sido feito dos meus sonhos? 
terei conseguido realizar uma boa parte deles?
como será a minha família?
terei o cabelo grisalho do meu pai?
as rugas da minha mãe?
estarei ainda a trabalhar com afinco e gosto?
continuarei a dar o meu melhor?
terei contado mais de um milhão de histórias?
terei saído do país para o fazer?
terei cantado tudo o que tinha para cantar?
terei ainda os amigos de hoje e recordaremos os dias passados?
terei muito mais amigos a encher-me o coração?
terei o amor da minha vida ao meu lado a acompanhar os meus dias e os meus planos?
terei filhos?
e netos?
serei capaz de enfrentar todos os desafios da família?
estarei pelo menos uma vez por mês com o meu irmão?
já terei tido um sidecar, um lada ou uma roulotte?
terei passado muito tempo no estrangeiro?
terei criado uma escola à maneira?
conseguirei já regar e entender as plantas?
ter a casa mais arrumada?
ser mais organizada?
terei já tido um cão grande?
terei tido asma, afinal?
terei sido operada a alguma coisa?
serei mais forte do que hoje?
mais sábia?
estarei bonita?
cheia de vitalidade?
conseguirei ainda subir a um quinto andar sem elevador todos os dias?
chorarei de comoção como agora?
terei saudades de mim hoje?
terei uma música dedicada a mim, vinda do fundo da alma?
terei feito a route 66? 
o caminho cantábrico de santiago?
direi tudo o que tenho para dizer?
aproveitarei mais o tempo certo?
estarei num país mais calmo, mais humano?
haverá notícias mais gratificantes no jornais diários?
terei travado grandes lutas?
terei subido o monte fuji?
terei acampado junto de um vulcão?
terei uma mala ou uma mochila?
farei os outros felizes?

estarei feliz?

em 2038, terei 60 anos. feitos em julho, como sempre.

(o que me ficou depois de "Os Dias São Connosco")



12.1.13

arrumações

brrrrbrrrbrrrrrrrrrrrr brruu ffffff vvvsssshhhtt vvvsssshhhtt hum hum  ffff fffffff  oooohhhpaa ooohhpa tuuu 

esfrega esfrega limpa limpa tira e põe tira e põe recompõe rasga rasga descompõe troca tira põe baixa levanta acarta baixa levanta baixa levanta acarta baixa baixa levanta acarta estica baixa baixa

and so on and so on

10.1.13

larga-o

larga o elástico

deixa-o acertar onde tiver de acertar
com toda a força esperada
por estar já esticado para além das suas possibilidades
e que desfaça o que tiver de desfazer

mas larga-o
larga-o tu

2.1.13


só quer a vida cheia quem teve a vida parada

sérgio godinho

1.1.13

um samba para todos os que são e não são como ele. um feliz ano novo.



"Que a vida não gosta de esperar 
A vida é pra valer 
A vida é pra levar"

31.12.12

e o mundo não se acabou
de carmen miranda
(ver e ouvir e morrer a rir)

para acabar o ano em grande!

(Obrigada S.!)

25.12.12

Da agenda do pai

"É o tempo, o tempo que leva a vida
que chora e choro na noite triste.
É a mágoa, a queixa mal definida
de quando existe, só porque existe."

Fernando Pessoa

quadras para um amor simples II

e se der ordem em contrário,
por dúvidas no coração,
que não voltem para trás os pássaros,
que mandei na tua direcção.

na tua direcção,
direitinhos a ti,
com recados de amor,
que vieram de mim.

24.12.12

20.12.12

a caminho do natal

                                                                     Gaëlle Boissonnard       

ainda com coisas por fazer

17.12.12

que privilégio


ontem pensei muito no hélder.

pensei muito no privilégio que tive de crescer num movimento que sempre me falou de caminhos e de montanhas e de como esses caminhos e essas montanhas são a aventura e o deslumbre que devemos esperar da vida. de como levar os outros connosco por esses caminhos e por essas montanhas tornam os percursos mais ricos e por vezes menos duros. de como guardar os amigos que nos acompanham pela vida fora passo a passo sempre que subimos mais um pouco, viramos na cortada errada ou paramos tempo demais para descansar, nos dá um aconchego para além de toda a nossa explicação.
pensei muito no privilégio que tive de crescer entre tendas, poesia e música. de crescer em conjunto. de crescer a ter de pensar e sentir.

ontem pensei muito no hélder. pensei muito em como uma pessoa que acredita na humanidade, consegue criar formas de ficar nas pessoas e de tornar as pessoas mais pessoas, com tudo o que isso possa envolver de dureza e leveza dos caminhos. 

caminhante não há caminho faz-se o caminho ao andar. não há festa sem os outros. os pássaros foram feitos para voar e voam. construindo a cidade dos homens. vale a pena a vida. creio num deus que saiba dançar. vai valer a pena ter amanhecido. não há longe nem distância. quem não sai de sua casa cria mil olhos para nada. quando chegares ao cimo da montanha, continua a subir. não é vergonha nenhuma ser feliz, mas é uma vergonha ser feliz  sozinho. até que ganhei tamanho para voar mais alto que as torres das igrejas. não é de repente que as pessoas estão umas com as outras. de onde quer que venhamos, estamos todos aqui. é proibida a entrada a quem não andar espantado por existir. agora é tempo de andar; mais tarde chegaremos. 

que privilégio...

13.12.12

tudo certo

não há nada que se assemelhe à certeza, que sentimos cá dentro, de que estamos a andar no caminho certo, quando coisas, que temos como certas na vida, acontecem no espaço e no tempo em que estamos e nos dão um prazer imenso de viver.

hoje a minha sala transformou-se verdadeiramente no conceito de escola em que acredito e isso deixou-me muito, muito em paz comigo e deu-me a certeza de que é mesmo possível.

fica, neste fim de noite, a imagem do escuro da sala, com luzes amarelas penduradas junto a todo o natal feito por todos, e as bocas abertas, em suspenso, de crianças, mães e equipa. fica o silêncio de que se enche esta imagem. e o sentimento que me percorreu de que estava tudo certo naqueles dez segundos.

a todos, um feliz feliz natal
assim cheio da sensação de que tudo está certo.

12.12.12




12.12.12



1.12.12

not perfect


Not Perfect

This is my Earth
And I live in it
It's one third dirt and two thirds water
And it rotates and revolves through space
At rather an impressive pace
And never even messes up my hair
And here's the really weird thing
The force created by it's spin
Is the force that stops the chaos flooding in

This is my Earth
And it's fine
It's where I spend the vast majority of my time
It's not perfect, but it's mine
It's not perfect

This is my country
And I live in it
It's pretty big and nice to walk on
And the bloke who runs my country
Has built a demagoguery
And taught us to be fearful and boring
And the wierdest thing is that he is
Conservative of politics
But really rather radical of eyebrow

This is my country
And it's fine
It's where I spend the vast majority of my time
It's not perfect, but it's mine
It's not perfect

This is my house
And I live in it
It's made of cracks and photographs
We rent it off a guy who bought it from a guy
Who bought it from a guy
Whose grandad left it to him
And the weirdest thing is that this house
Has locks to keep the baddies out
But they're mostly used to lock ourselves in

This is my house
And it's fine
It's where I spend the vast majority of my time
It's not perfect, but it's mine
It's not perfect

This is my body
And I live in it
It's thirty-one and six months old
It's changed a lot since it was new
It's done stuff it wasn't built to do
I often try to fill it up with wine
And the weirdest thing about it is
I spend so much time hating it
But it never says a bad word about me

This is my body
And it's fine
It's where I spend the vast majority of my time
It's not perfect, but it's mine
It's not perfect

This is my brain
And I live in it
It's made of love and bad song lyrics
It's tucked away behind my eyes
Where all my screwed up thoughts can hide
'Cause God forbid I hurt somebody
And the weird thing about my mind
Is that every answer that I find
Is the basis of a brand new cliché

This is my brain
And it's fine
It's where I spend the vast majority of my time
It's not perfect, but it's mine
It's not perfect
I'm not quite sure I've worked out how to work it
It's not perfect
But it's mine

Tim Minchin

(Obrigada I.)

26.11.12

24.11.12

imagens



faziam silêncio para não disparar o barulho que se instalara nas suas cabeças e que os fazia estar ali juntos uma última vez, sabendo que nada mais havia a exigir um do outro. partilhavam pela última vez a companhia um do outro, na esperança silenciosa de poder acalmar o coração.

e esta imagem, de um homem e de uma mulher, parados a olhar o mar, num silêncio profundo, era fotografada, ao longe, pelo melancólico homem solitário que procurava o amor aos fins de semana. a imagem trazia-lhe essa emoção.  a de um amor profundo. lá, no entanto, no sítio onde ela acontecia, ele não existia. 

que uns vêem dos outros apenas imagens e compõem à volta delas as histórias que querem construir para si. e ainda que a realidade possa não existir, fica assim construído o sonho da sua possibilidade.

22.11.12

desencontros


nela voava o espírito santo
nele voava o espírito livre


14.11.12

um megafone para a multidão

"Jairo Campos explicou que, antes da carga policial, os elementos do corpo de intervenção da PSP fizeram duas advertências para os manifestantes dispersarem e estes não abandonaram o local."
rtp


por favor, não me digam que foi este megafone que anunciou às pessoas que deviam dispersar de são bento. por favor, não me digam que a quantidade de gente que hoje apanhou em frente à assembleia devia ter ouvido este megafone. tão igual aos megafones que ninguém entende no meio das manifestações.

eu não ouvi.
e eu estava lá.
e só soube porque ouvi mais tarde na televisão.
e por sorte não apanhei.
e atrás de mim tinha os olhos de ódio de um polícia.
e eu não mandei pedras.
e eu fiquei do lado de quem está pacificamente a mostrar o seu descontentamento.
e eu fiquei do lado de quem não concorda com os ataques à polícia.
e eu fui arrastada com toda a multidão.
e eu quero poder dizer que quero um país diferente.
e eu quero poder dizer que até podemos ser mais pobres, mas que isso seja justo para todos.
e eu não atirei pedras nem garrafas.
e eu estava ao pé de muita gente que também não estava a atirar pedras nem garrafas.
e eu queria agora ter a cabeça e o coração mais calmo, sabendo que o dia de hoje, apesar de toda a violência, seria um dia de mudança.
ficam as imagens que não dizem de modo nenhum todas as coisas como elas foram.
e fica uma espécie de tristeza misturada com agressividade a latejar cá dentro por nada disto fazer muito sentido e não sabermos afinal como é que um povo se faz ouvir e assume o rumo do seu país.
talvez seja mesmo a hora de nos reinventarmos.

mas, não, não me digam que aquele megafone foi o momento em que a polícia pediu aos manifestantes para dispersar. porque esse é o momento em que tudo, tudo fica deturpado nas imagens e que faz da tarde uma outra coisa.

11.11.12

verão de são martinho

hoje o sol bateu-me na cara, com todo o calor que podia, para me aquecer a alma. não pude deixar de agradecer ao são martinho essa sua metade da capa e apreciar, de forma peculiar, esta coincidência do universo, de o trazer todos os anos. 
[e hoje em particular.]

9.11.12




hoje, um obrigado imenso aos meus pais.
por me terem vindo ajudar a não deixar de voar.