26.9.12

setembro

desde sempre que setembro é um mês estranho de nostalgia e recomeço. acabaram as férias. tenta-se prolongá-las mais um bocadinho enquanto faz bom tempo. fazem-se revisitas em fotografias e conversas de amigos e pequenos momentos antes de adormecer. guardam-se umas quantas memórias para aquecer o coração durante o frio do inverno. traz-se a força que ficou delas. e recomeça-se de novo. começam-se a traçar novos projectos. a não deixar morrer alguns já traçados. tentam encaixar-se horários, reganhar a rotina necessária para a organização mental e circunstancial. começa-se a acordar de noite. a jantar já de noite. a tentar fazer tudo o que queremos entre uma noite e a outra. no fundo, vamos tendo a certeza de que o verão acabou e de que a mudança está para acontecer. e entre o longo agosto de praia, que se apequena quando voltamos, e o  outonal outubro já equilibrado no corpo e nos dias, fica este mês de setembro nostálgico e  sonhador. agridoce. docemente tumultuoso.

22.9.12

muda de vida




Muda de vida se há vida em ti a latejar


Olha que a vida não é nem deve ser 

como um castigo que tu terás que viver


António Variações

19.9.12

sacos de plástico



é tão difícil arrumar sacos de plástico. conseguir a combinação perfeita entre o espaço, o objecto, a paciência e o tempo para os arrumar. dá pena deitá-los fora, porque pode sempre aproveitar-se para "qualquer-coisa". dá pena porque até parece mal comprá-los e não os reutilizar. vão-se guardando todos. um dia, já eles estão demasiado despenteados, até começam a aparecer fora do sítio onde se guardam. depois arranja-se um outro saco para os sacos que estão de fora e ficam guardados "mais-aqui-à-mão". e depois o saco de papel que sempre dá para a reciclagem. e mais os sacos das lojas que são tão giros e não sei quê e não sei que mais... e de desculpa em desculpa, chegamos ao dia em que um grande monte de sacos tomou a nossa casa e nós ficamos  todos amarfanhadinhos, guardadinhos num sítio qualquer.


18.9.12

corpo

concentra-te no corpo. 
concentra-te no potencial de cada parte do corpo. 
respira.
concentra-te na vida que lhe corre dentro. 

respira.

concentra-te no que ele te diz e no que te pede. 


respira calmamente.


pensa que és o corpo e não que o tens. 

(...)

acredita que ele pensa e sabe o que tens de fazer. 



ouve-o. 


respira.

respira.

respira.

16.9.12

dia seguinte

naquele dia seguinte aos grandes acontecimentos parece que fica em nós um silêncio sossegado e os pensamentos têm espaço para serem tidos com calma. num desses passeios pelos pensamentos, muito acompanhado por aquilo que me ficou no coração, tive a sensação de que é não um direito, mas um dever nosso procurar o melhor e, sem dúvida, marcar esta nossa passagem pelo planeta terra. não para ganharmos méritos, não para ficarmos para a história, mas para termos a certeza de que fizemos o que tínhamos a fazer neste nosso cantinho da humanidade e que ela poderá perdurar pelos tempos sempre com a capacidade de lutar e usufruir de toda a sua vida.

5.9.12

dias úteis




mesmo por pretextos fúteis

a alegria é o que nos torna

os dias úteis
sérgio godinho

para a T., a C. e a J.
e para a praia de fim de tarde 
e o anoitecer de caracóis e pica pau
e a noite com esplanada só para nós
e mar ao lado só para nós
e escuridão só para nós

4.9.12

há dias XXVIII

há dias em que sentimos um fervilhar cá dentro 
porque uma pessoa deu um salto de gigante ao pé de nós
e começamos a ter vontade de o dar também

2.9.12

diz... e então ela disse. não tenho palavras. e fez um silêncio. não tinha de facto palavras. o vento batia-lhe no corpo, mas era era um vento quente. o sol quase a pôr-se e o vento ainda quente. batia-lhe também o cansaço do dia e a expectativa do seu fim. nunca ousara deixar o dia tão em aberto. e, agora, ali sentada na esplanada, era o silêncio que lhe apetecia. ele acabou por ceder e acompanhar a sua falta de palavras. e era como se nesse instante todas elas se tivessem tornado inúteis e restasse apenas aquele fim de tarde entre os dois.

25.7.12

prenda de anos caseira


Sísifo

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII


(obrigada, R., por este pequeno espaço de partilha.)

20.7.12

34

entretanto fiz 34 anos.
34...

encho sempre as idades de um significado qualquer. sinto sempre uma necessidade de transformar os números ou a época em qualquer coisa simbólica para a minha vida. não sei bem porquê, mas faço isto há muitos anos.

o ano passado fiz 33. que número maravilhoso! que possibilidade espantosa de deixar para trás todos aqueles pedaços de mim que não valem mais a pena serem carregados. aqueles pedaços de vida que não vale mais a pena serem tão pesados. 33. a idade do cristo. a idade da morte do cristo. a idade de deixar morrer todas essas coisas que deixaram de fazer sentido e que não valem a pena o espaço que ocupam. 
que maravilha! desde os 25 que não tinha assim uma epifania tão forte sobre o simbolismo de uma idade. 
que caminho tão grande à minha frente e que entusiasmo e medo e nostalgia e força e pena e tudo... e que tudo que estava pela minha frente.
a par com o caminho, a minha decisão para os 33 anos foi tomando forma e ganhando todo o espaço dentro de mim. e a cada pequeno e grande passo a minha decisão fazia cada vez mais sentido. que bom sabermos por onde queremos ir, ainda que tudo seja atribulado.

de há umas semanas para cá, a proximidade dos 34, começou a travar este meu entusiasmo. é que " sinto sempre uma necessidade de transformar os números ou a época em qualquer coisa simbólica para a minha vida. não sei bem porquê." 
e 34... francamente... 34 depois deste arrebatamento dos 33... hmmm... que coisa mais enfadonha e... entediante... e... que número mais sensaborão... 
bem, sem deixar a vida andar para trás, uma nítida tristeza de deixar os 33.
e assim se arrastou esta ideia, entre piadas para os outros e para mim.
mas entretanto, na manhã em que iria fazer essa tal idade sem sabor, acordei com uma outra maravilhosa epifania! nem queria acreditar! ora pois! se os 33 foram para deixar morrer, os 34 são para renascer. para usufruir da possibilidade de não trazer mais aqueles monstros pesados comigo, de não me agarrar àqueles fiozinhos de passado que não acrescentam nada ao meu futuro e à vida inteira que tenho pela frente.
que sorte!
de maneira que, quando a minha mãe ligou à costumeira hora matinal a que eu nasci, tive mesmo a sensação de estar a nascer de novo. de estar a ter a possibilidade de criar tudo outra vez e reinventar novas vidas dentro desta tão grande e tão pequena que temos.

pois então, os 34

15.7.12

rir


“Rir? Pensamos alguma vez em rir? Quero dizer rir verdadeiramente, além da brincadeira, da troça, do ridículo. Rir, gozo imenso e delicioso, gozo completo...
Dizia à minha irmã, ou dizia-me ela a mim, anda, vamos brincar a rir? Estendíamo-nos lado a lado sobre uma cama e começávamos. A fingir, claro. Risos forçados. Risos ridículos. Risos tão ridículos que nos faziam rir. Então chegava o verdadeiro riso, o riso inteiro, que nos transportava no seu imenso rebentar. Risos sem gargalhadas, redobrados, desordenados, desenfreados, risos magníficos, sumptuosos e loucos... E ríamos até ao infinito do riso dos nossos risos... Oh rir! Rir de prazer, o prazer de rir; rir, é tão profundamente viver.”

Annie Leclerc



29.6.12

amigos para sempre


chegado, num outro formato, ao meu e-mail, vindo do M. 
- um destes amigos da presença diária de antigamente,
de quem tenho, às vezes, muitas saudades.
"entre o dia de ficarmos amigos e o dia de morrermos
 vai uma distância tão grande como a vida"

24.6.12


há domingos que parecem umas férias inteiras

(obrigada pelas férias, R.)

15.6.12

família



será sempre esta a música que me fará regressar a casa e percorrer as memórias em paz. 
todas as memórias.
mesmo as que tenho pena de não ter.

13.6.12

do not go gentle into that good night



Do not go gentle into that good night,
rage, rage against the dying of the light.

Dylan Thomas

11.6.12

de vez em quando crescemos para toda a vida.

de vez em quando precisamos mesmo de fazer diferente nem que se nos coma o estômago todo e pareça mesmo que vamos desfalecer e que não vai haver lugar onde consigamos estar seguros sem que o mundo nos caia em cima. de vez em quando parece mesmo que não vamos aguentar e que mais valia estar quieto e não ter de enfrentar as vísceras todas a comerem-se por dentro. 
mas tem de ser. temos mesmo de passar por isso tudo. sem desistir. 
para sabermos da força que temos e nem imaginávamos. 
para sabermos que podemos ir por muitos caminhos e há uns bem melhores do que aqueles que costumávamos fazer.
para confiarmos verdadeiramente em nós e nunca mais voltarmos a desistir.
para irmos em frente e nunca mais termos medo.

e, no fim, ganharmos a certeza de que fizemos o melhor que conseguíamos e sabíamos e podíamos e foi mesmo o melhor.

de vez em quando crescemos para toda a vida. 

2.6.12

dia da criança

quando tiramos o curso de educadoras, nem imaginamos tudo aquilo que está para vir. 
não imaginamos tudo aquilo de que não ouvimos falar e que nos vai aparecer pela frente. não imaginamos que os assuntos, que passamos ao de leve, são mesmo a vida das crianças, pela qual vamos também ser mesmo responsáveis. e não imaginamos que esses assuntos tenham mais importância do que aquela que lhes estamos a dar enquanto matéria de uma disciplina de faculdade. e a nossa maturidade dos 18, 19, 20 anos talvez não chegue mesmo para entender de que forma eles vão aparecer na nossa vida profissional. e de que forma vai mexer com a pessoa que nós somos também fora do nosso trabalho.

hoje, no dia da criança, tive de tomar uma decisão que espero,
 muito sinceramente, que ajude uma criança a ser feliz.

29.5.12

yatra



   yatra.


    uma viagem maravilhosa,
    em cena no teatro da malaposta.


    uma viagem de riso emocionado.
    tão simples.
    tão fundo.
    tão bonito.


    yatra.

25.5.12


e a partir de hoje, quero sempre ver a lua sobre a capital

22.5.12

home



(obrigada, L. há músicas que vêm no dia certo)

itália

    (umas horas depois da minha partida)

21.5.12

viagens

levam-me sempre a lugares novos.
dentro e fora de mim.
a lugares novos nunca conhecidos.
a lugares novos nos já conhecidos.

e por isso 
são sempre 
um encontro 
e um reencontro 
de muitos lugares.

como se todos os lugares existentes 
dentro da minha vida 
tivessem de se abrir e fechar
nascer e morrer 
para tudo se reorganizar.

no que sei e no que sinto.


12.5.12

há dias ...


há dias em que, sem querer, concretizamos um sonho 
que já nem nos lembrávamos de ter.

11.5.12

há meses


há meses pequenos 
para a quantidade de aventuras que temos para viver

6.5.12

poesia nas conversas

enquanto cortávamos papel sem fim para o trabalho da semana seguinte, íamos conversando sobre a vida e sobre nós. de onde somos, de onde sentimos que somos.

E. - nós somos da terra para onde vamos trabalhar.
C. - mas a E. não se cansa de falar da terra e até os olhos brilham quando fala da sua horta.
E. - pois é... pois é...
      (silêncio das tesouras a cortar)
E. - sabe, C., quando casei, tive de vir para Lisboa... e custou tanto. vir para o apartamento.
   quando fechava as persianas, até parece que se fechava tudo em mim. 
       (silêncio e tesouras paradas)
E. - era mesmo isso...