2.5.12

1 de Maio

para além disto e disto, a imagem que me veio imediatamente à cabeça foi a que criei quando li o "ensaio sobre a cegueira". de repente, senti-me num país limite, num desespero desmedido, como se, de facto, estivéssemos à beira do fim do mundo, desprovidos das nossas capacidades humanas e incapazes de medir as nossas acções. 

o que vale é que há sempre alguém que transforma estas más sensações em riso.

28.4.12

senta-te aí


Está na hora de ouvires o teu pai
Puxa para ti essa cadeira
Cada qual é que escolhe aonde vai
Hora-a-hora durante a vida inteira

Podes ter uma luta que é só tua
Ou então ir e vir com as marés
Se perderes a direcção da Lua
Olha a sombra que tens colada aos pés

Estou cansado, aceita o testemunho
Não tenho o teu caminho pra escrever
Tens que ser tu, com o teu próprio punho
Era isto que eu te queria dizer

Sou uma metade do que era
Com mais outro tanto de cidade
Vou-me embora que o coração não espera
À procura da mais velha metade


*


Rio Grande


25.4.12


"Quero poder olhar para trás e dizer: terei feito algumas asneiras, mas no conjunto posso partir, lá para onde for, com tranquilidade"

 miguel portas

24.4.12

e correu para nunca mais voltar

desfazia o muro com toda a sua raiva, com todo o seu ódio. numa explosão interior, esperneando, gritando, enlouquecendo na ânsia de conquistar a sua liberdade e a destruição total do muro sem que nada restasse que estivesse emuralhado. dentro de si nascia uma força sobrenatural muito maior do que o corpo que tinha. uma raiva. um ódio. desse muro. só desse muro. construído nos tempos sem tempo. nos tempo sem sentido de que já nem se lembrava e que não eram mais o seu mundo. dentro de si nascia uma força vinda das entranhas que se soltava em murros e gritos e raiva e loucura. e os gritos e a raiva e a loucura e esta tremenda força trouxeram-lhe os amigos de sempre e para sempre. também enraivecidos e loucos e desejosos de ver o muro desaparecido definitivamente, devolvendo a liberdade talvez nunca sentida. o muro explodiu, rexplodiu e recontraexplodiu. desfez-se em pó. sumiu. desapareceu no universo. o barulho gigantesco das explosões deu lugar ao barulho gigantesco dos gritos. da felicidade. dos abraços. da crença de que agora podia correr. e correu correu. e os amigos a gritar "vai! vai! o mundo é teu!" e correu, olhando para trás... e correu olhando para a frente. e correu sem medo para aquele lugar onde sempre queria ter estado. e correu para nunca mais voltar. correu para nunca-mais-voltar.

21.4.12

jantar

- anda. senta-te. tenho aqui uma sopinha e acabei de pôr a mesa e abrir o vinho tinto. não precisas de explicar nada, nem falar de nada se não te apetecer. é assim este jantar. para tu descansares. para estarmos por aqui. se te vierem as lágrimas aos olhos deixa-as vir. nem penses em pensar no que eu possa pensar. se te apetecer, chora sabes como sou a favor da chuva na altura certa para limpar tudo. mas se não te apetecer, não chores.  e se quiseres que fale de trivialidades, diz. sabes que sou boa nisso. e se quiseres que abra o coração para aliviar o teu, também o faço. vá, já chega. tu já sabes tudo. estás em casa. vou pôr uma musiquinha e podemos comer.
 
há pessoas em quem descansamos melhor do que em qualquer sofá. não porque digam coisas espectaculares. não porque tenham os conselhos adequados para cada tipo de situação. não porque tenham comprado a comida que gostamos mais. mas simplesmente porque sabemos que estão de braços abertos prontos a receber-nos de qualquer maneira. e é um privilégio ter pessoas assim à nossa volta.

17.4.12

atenção à escrita automática

hoje fiquei enternecida com uma mensagem que dizia:

"ainda tens o meu abraço?"

derreti-me.
poesia a meio do dia.

"claro que sim. tenho muitos. vai este agora por mensagem."

de resposta:

"hein?! ainda tens o meu casaco ou não?"

bom, afinal era prosa clarificativa. respondi que "sim" e voltei ao trabalho.

15.4.12

We all do what we can
So we can do just one more thing
We can all be free
Maybe not with words
Maybe not with a look
But with your mind


cat power, Maybe Not

13.4.12

Parto Sem Dor

e agora eu vou-me embora
e embora a dor
não queira ir já embora
agora eu vou-me embora
e parto sem dor

e parto dentro de momentos
apesar de haver momentos
em que dentro a dor
não parte sem dor

*

sérgio godinho

10.4.12

quadras para um amor simples


larga o peso, menina

não andes tão carregada
que te doem as costas
no fim da jornada

mais do que era preciso
mais do que era devido
larga o peso, tem juízo
e vai ter com o teu marido

ele é bom
tem coração
dá-lhe tu também
a mão

21.3.12


gosto de acabar o dia e saber que fiz a diferença na vida de alguém porque sei que é valioso alguém fazer a diferença no nosso dia.


20.3.12

percurso para uma avaliação

vai. faz devagarinho. se não te deram guião, faz de forma a que olhes e te vejas a ti. não te preocupes. sê persistente. dá o teu melhor. leva as ideias até ao fim. e, no fim, quando olhares para o resultado, sente que valeu a pena e que ficou o melhor de ti lá exposto. e depois dorme descansada e orgulhosa. vais merecer.

17.3.12


"ter sorte dá muito trabalho"


a 16 de março escrito no quadro da bela

13.3.12

às vezes devia ouvir o que digo

o A. queria saber o porquê daquela regra básica de uma sala de jardim de infância: "arrumar o que desarrumamos". ao explicar-lhe todas as vantagens, para a nossa vida social e pessoal ali dentro, de sabermos exactamente o lugar das coisas e de termos a certeza de que elas vão lá estar quando as procurarmos... ao explicar-lhe isto, fiquei estupefacta comigo mesma. como é que eu já sei isto há tanto tempo e insisto em não agir em conformidade? tão simples. arrumar o que desarrumamos. ora aí está! que tranquilidade. tão simples. [e para mim tão complexo.]
ora aí está. arrumar o que desarrumamos.

12.3.12

atenção


acabámos de desproibir o proibido



11.3.12

escritos de rajada IV

olhava para trás e era como se toda a sua vida tivesse sido escolhida por outros. por uma impossibilidade sua de se saber capaz de escolher [e no entanto sabia que tinha escolhido não escolher].
estava na hora de pôr os seus pés a caminho, por muito que lhe doessem de fazer os caminhos dos outros. estava na hora.

4.3.12

casas encontradas mais tarde no mesmo dia

3.

"Se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz."

Gaston Bachelard

de como casas e pessoas se misturam


1.
"o importante não é a casa onde moramos, mas onde em nós a casa mora"
Mia Couto


2.
"As pessoas moram nas casas, mas o contrário também é verdade: AS CASAS MORAM NAS PESSOAS.
(...)
Há um momento em que uma casa fica completamente vazia e outra se começa a encher com as nossas coisas. Tudo parece sempre muito desarrumado. Temos saudades da antiga casa, mas sabemos que já não podemos voltar para lá.
Ainda não sabemos bem onde pertencemos. Somos como uma varanda, com uma parte fora e outra dentro.
Só ao fim de algum tempo, quando nos dedicamos a cuidar da nova casa, é que começamos a conhecer-lhe os segredos e a descobrir o que a torna diferente da outra.
(...)
Não importa como seja, é essa casa que agora mora dentro de nós."

in onde moram as casas, Carla Maia Almeida

29.2.12

à T. e ao R.

é mesmo verdade. os amigos vão e voltam.
e há um dia em que nos reencontramos e nem sabemos já que voltas a vida deu e nos fez estar tanto tempo sem sabermos um dos outros. não nos lembramos sequer porque deixámos de ter os números uns dos outros e fomos deixando de nos corresponder.
e assim, numa tarde, se revivem tantos anos para trazer os velhos a estes tempos.
assim, numa tarde sem aviso.

28.2.12

poema-lengalenga para uma grande amiga

quero ver-te assim bonita
bem cheirosa e bem falante
mala ao peito para a vida
a procura de um amante
que ame antes a altiva
por ter a coluna direita
e não pelas três ou quatro frases
que a deixam tão distante
dessa deusa tão perfeita
que pisa esta mesma terra
onde andam tantas gentes
por onde ela se entremeia
assim bonita e bem cheirosa
por não ter a coluna torta
e a todas abrir a porta
dessa casa tão constante
na sua busca corajosa
duma vida que procura
uma outra parecida
que saiba para onde olhar
sem mais nada se importar
a não ser sempre este cheiro
que lhe mostre onde voltar

27.2.12

Aos homens ordenou que navegassem
Sempre mais longe para ver o que havia
E sempre para o sul e que indagassem
o mar, a terra, o vento, a calmaria,
os povos e os astros
E no desconhecido cada dia entrassem

Sophia de Mello Breyner

26.2.12

uma tarde

não era senão uma tarde
igual a tantas outras
com o sol de inverno a beijar-lhe a cara
mas esta trazia-lhe a sensação de estar de volta ao mundo

não era senão um calor conhecido
que lhe percorria o corpo
como tantas vezes já lhe tinha acontecido
mas este trazia-lhe de volta o desejo perdido
há algum tempo

não era senão um momento de encontro
repetido no tempo

com contornos semelhantes
mas este trazia-lhe de volta o amor esquecido num canto qualquer

esta tarde
este calor
este momento
trouxeram-lhe de volta o seu caminho

e
com o seu caminho
a imagem do sítio onde queria chegar

21.2.12

começar de novo

a quantidade de vozes que nasce dentro de ti quando te decides a tomar uma decisão é inimaginável. ouves vozes que nunca ouviste. a tua cabeça fica cheia de barulho e custa-te perceber a que voz dar razão. depois decides tomar o rumo da discussão e deixar falar uma de cada vez. pesas o que diz cada uma com calma e atenção. depois de todas ouvidas há umas que tens de aniquilar sem piedade. outras que deixas estar ali para o que der e vier. e por último aplaudes as que vão ao encontro do teu mais intenso desejo. e pronto! depois é só começar a fazer as mudanças. reorganizar tudo por dentro. deves pôr música. abrir as janelas para arejar a casa. ver os caixotes a serem carregados com alegres assobios e a serem abertos com imenso carinho. tens de ter o cuidado de mandar o lixo com as vozes aniquiladas.
e assim... assim começa tudo de novo.

14.2.12

há dias XXVI


há dias em que uma menina chega ao mundo
e lhe dedicamos a alegria de um dia inteiro.

(a essa menina desejo uma grande vida)

9.2.12

(des)conversas


"Falavam em voz baixa, de coisas sem importância que não eram obviamente as coisas que lhes dominavam os pensamentos."


O Beijo, Kate Chopin

8.2.12

inverno



este inverno são as luas maravilhosas sobre o rio tejo

5.2.12

o tempo

"Se tu vens por exemplo às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz.
(...)
Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de vestir o coração..."


Principezinho

31.1.12

hora de almoço II

e então olhou para dentro de si e descobriu que lá, dentro de si, é que estava a solução - e sempre tinha estado. essa e todas as outras que teria de encontrar pela vida fora. daria provavelmente muito trabalho encontrar as mais difíceis porque estavam guardadas em sítios inimagináveis - o seu forte não era a organização e a arrumação. mas a certeza de que tudo estaria sempre ao seu dispor, deu-lhe o conforto de uma vida.

respirou fundo, deixou o banco de jardim e decidiu ir acabar o que tinha para fazer.