24.2.10



estou inbernada
inervada com o inverno
hibernada



1.2.10

mas é preciso morrer e nascer de novo

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração

mafalda veiga


24.1.10

há dias XV



há dias de sol em dias de inverno.
esses são dias surpreendentes.


19.1.10

escritos de rajada II


Ele entrou. Ela respirou. Ele tirou um livro da estante. Ela tossiu. Ele sentou-se no sofá. Ela disse que já chegava. Ele abriu o livro. Ela saiu. Ele fechou o livro. Ela ligou a água. Ele estendeu os braços nos braços do sofá. Ela despiu-se. Ele disse que pois sim já chegava. Ela testou a água. Ele disse que para além disso já era demais. Ela entrou na água. Ele levantou-se. Ela fechou os olhos. Ele deu vários passos em cima do tapete. Ela respirou fundo. Ele saiu. Ela pensou que haveria mais para além disto. Ele atravessou o corredor. Ela acomodou a cabeça. Ele entrou. Ela pousou uma perna por cima da outra. Ele perguntou o que queriam afinal. Ela disse que queria estar assim. Ele disse que estava cansado de barulho. Ela disse que então fiquemos só assim. Ele ficou só assim. Ela ficou só assim. Ele perguntou se podia. Ela acenou que sim. Ele despiu-se. Ela acomodou-se. Ele entrou na água. Ela sentiu o coração bater acelerado. Ele tocou-lhe. Ela olhou-o nos olhos. Ele olhou-a nos olhos. Ela fez silêncio. Ele disse que era bom assim. Ela fechou os olhos. Ele fez silêncio. Ela disse que tinha saudades de quando era só assim. Ele passou-lhe as mãos pelas pernas. Ela pediu-lhe que parasse. Ele deixou ficar as mão nas coxas. Ela deixou que o coração batesse mais sossegado.


14.1.10





um desejo profundo de dormir com brilhos a tomar conta dos sonhos.

10.1.10



vieira da silva

28.12.09

há dias XIV




há dias em que temos que calar os nossos demónios e dar voz às nossas convicções.
esses são dias gratificantemente difíceis de viver.


27.12.09

carta IV

querida amiga,

chegou dezembro e a vontade de olhar para o ano todo.
aquele que começou já no longínquo janeiro.
já sei que não vais ter nenhum dia de férias e que isso te rouba o relaxe e a calma que gostas de ter para pensar nos teus desejos e sentires o que ficou no teu corpo do ano que passou. sei que é um verdadeiro prazer para ti.
por isso te escrevo esta carta rápida, já em fim de fim de semana. no próximo já estamos no novo ano. por isso te escrevo já. para te dizer que tiveste um grande ano. que sei que estás cansada e que gostavas de ter chegado mais além em algumas coisas e não ter chegado a outras. que gostavas que alguns caminhos tivessem sido menos tortuosos e menos solitários. mas tu sabes que eu acho que ainda assim valeu a pena - e vai valer.
[e sabes que tu própria achas que valeu a pena - e vai valer]
tiveste grandes coisas a acontecer-te,não foi?
tiveste momentos fortemente bons, não foi?





continuo a confiar muito em ti e sei que, no fundo, te sentes feliz.
aproveita bem o 2010.
acho que vais ter boas surpresas.

um abraço muito forte

p.s - devias ter feito a máquina de roupa ontem. olha o que chove agora!



14.12.09

harmonia



talvez por serem tão raros
os momentos em que um homem ou uma mulher
se sentem em total harmonia com o mundo
eles sejam tão procurados e desejados



conversas de amigos

- quando eras pequenino o que é que querias ser quando fosses grande?
- eheh, queria ser uma coisa diferente todos os dias.

8.12.09

TED´s



há algum tempo que o i. me falava deste sítio e há algum tempo que eu adiava a visita. queria que eu visse isto. e eu demorei algum tempo. mas agora já lá fui e parece que descobri um mundo novo. um mundo grande. agora vou fazendo visitas diárias e descobrindo pequenas maravilhas.






esta foi a de hoje. fantástico.

"Success is in the doing. And failures are celebrated and analysed. Problems become puzzles and obstacles disappear."

(obrigada pela insistência i.)

3.12.09

chore





chore, chore muito.
chore tudo o que tem a chorar.
chore sempre que precisar.
chore muitas vezes ao dia.
chore mesmo se achar que não precisa.
chore em casa, no metro, no café.
chore com barulho, desafinado, com soluços.
chore com lenços ao lado ou de mangas compridas.
chore sozinho, com amigos ou desconhecidos.

chore enquanto lê, enquanto cozinha, enquanto conduz, enquanto caminha.
grite enquanto chora. diga palavrões, fale alto, invente discursos.
chore por tudo e por nada.


mas não se esqueça de chorar.





(porque é que quando temos ataques de riso a cabeça não pensa muito e quando temos ataques de choro parece que vai explodir?
porque é que quando temos ataques de riso o mundo é maravilhoso e quando temos ataques de choro o mundo parece que vai acabar?)





20.11.09

arquivo da história pessoal

hoje visitei o arquivo da santa casa da misericórdia de lisboa e o museu de são roque e percebi que o facto de acumular muitas coisas e de ir guardando pequenas recordações de pequenos momentos pode ser uma grande qualidade. pode ser uma tentativa de contar uma história. a minha história pessoal. a minha história pessoal no mundo. e que isso pode ser muito importante. mas, acima de tudo, percebi que se quero que estes gestos tenham essa importância, então terei de me dedicar à forma como vou guardando essas coisas e essas recordações. se não estiverem bem aconchegadas e legendadas, desaparecem com certeza com o tempo e então não vale a pena estar a acumular e a guardar. isso será apenas um monte de lixo triste e contará mal a história.
(dava-me jeito uma sabática para fazer isto com calma)

16.11.09

oh happy days




este natal, se tudo correr bem, vou receber de presente a participação num coro de gospel.
what a happy day!

12.11.09

é um prazer acabar um trabalho que deu muito trabalho a acabar.

8.11.09

"tens mais medo do escuro ou do silêncio?"

a rapariga do copo de água

- Após estes ano todos, o único personagem que ainda não consegui captar foi a rapariga do copo de água. Está no centro do quadro mas parece estar de fora.
- Talvez seja só diferente dos outros.
- Diferente em quê?
- Não sei... Quando era pequena brincava pouco com outros meninos. Talvez até nunca.
(...)
- A rapariga do copo de água... O ar alheado pode ser por estar a pensar em alguém.
- Alguém do quadro?
- Mais um rapaz conhecido noutro lado... Mas sente que são parecidos, ela e ele.
- Dito de outra maneira, ela prefere imaginar uma relação com um ausente a criar laços com os presentes?
- Ou talvez tudo faça para emendar a baralhada da vida dos outros.
- Mas a baralhada da vida dela, quem emenda essa?
- Sempre é melhor dedicar-se aos outros que a um duende de barro.
(...)
- Diga-me cá, aquele rapaz, ela voltou a vê-lo?
- Não, afinal não se interessam pelas mesmas coisas.
- A sorte é como a Volta à França; fartamo-nos de esperar e num segundo já passou. Chegado o momento há que saltar a barreira sem hesitações.
(...)
- Então é aquele ali, o da mão no ar. Está apaixonada por ele? Quanto a mim chegou o dia de ela arriscar tudo por tudo.
- Anda a pensar nisso, a preparar um estratagema para...
- Como gosta ela de estratagemas... Na verdade é um pouco cobarde. Deve ser por isso que não consigo captar a expressão.
(...)
- A Amélie não tem ossos de vidro, bem pode levar pancada da vida. E deixa passar a oportunidade. Com o tempo é o seu coração que será tão seco e quebradiço como o meu esqueleto. Vá em frente, raios!
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

7.11.09

pequenos prazeres solitários




cozinhar ao som de música
que esteja em sintonia
com o nosso estado de alma.




4.11.09

há dias XIII



há dias em que apetece ter um cavalo dourado e desatar a galopar por aí.

carta III

querida amiga,
tenho reparado no teu esforço para te organizares. dentro e fora de ti. tenho admirado isso.
vi que arrumaste o escritório e deste continuidade ao teu projecto de arrumar o passado deitando fora o que já não interessa. sei que andas a usar a agenda e que tens feito as coisas a que te propões de uma forma mais ou menos regrada. sei que te tens deitado tarde. que te tens dedicado ao trabalho ainda que de vez em quando te custe identificares-te com o que te pedem.
queria só mesmo dar-te uma força e mandar-te um grande abraço.
estou sempre contigo.
p.s - consegues mandar-me aquela música que estavas no outro dia a ouvir na cozinha. era o quê?

31.10.09

coisa legal


"sei lá! eu não sei o que é que eu quero prá ela... eu queria tanta coisa legal! sabe, tipo...
que ela ria muito, que ela não fique pesada nunca...
sei lá! queria troço legal. (...) também não sei. de repente o legal meu não é o legal dela."

elis regina sobre maria rita

29.10.09

parênteses

(acabei de me chatear com o meu próprio blogue que não respeita a formatação que pretendo dar aos posts. é enervante!)

outubro, outubrão

de manhã inverno
à tarde verão
[à noite
constipação]
dá-se-me aqui um mimo com esta espécie de ameaça de gripe.
dá-se-me aqui uma vontade de chá e mel e de alguém que surpreendentemente me traga laranjas porque fazem bem aos estados gripais.
ficamos tão pequeninos quando nos dói a cabeça e a garganta. quando a todo o instante parece que a febre vai desatar a subir. quando o pingo insiste em sair sem pedir licença.
ficamos assim com necessidade de quentinho e de alguém que nos puxe os cobertores para cima e não tenha medo de apanhar a nossa dor de garganta e de cabeça.

28.10.09

sensações a lembrar de vez em quando

a luz do sol poente a bater nas fachadas dos edifícios lisboetas. as papoilas vermelhas no início da primavera. o som do vento a passar de fininho nas persianas da escola. um estendal de roupa branca. pão quentinho com manteiga derretida. o cheiro do mar. O Beijo de Klimt. a pele de um bebé recém nascido. abraçar uma árvore milenar. um sorriso por entre a multidão. a fotografia de parentes distantes no tempo. o abraço apertado mata-saudade. o céu azul, já noite. a voz masculina a ler ao adormecer. os dedos das mãos a brincar por entre a relva. palavras ditas ao ouvido. duas ou três pessoas a despedirem-se emocionadamente na plataforma de campanhã. a água límpida do riacho do vale da teixeira a tocar a cara. uma maçã verde. um prado imenso a perder de vista. o cheiro dos lençóis lavados e passados a ferro. a cor da lua ainda próxima da linha do horizonte. a água a receber o corpo depois de um grande mergulho.

27.10.09

há dias XII

há dias em que conseguimos concretizar uma das grandes decisões de passagem de ano.
esses são grandes dias.

25.10.09

anoiteceres


as seis da tarde
vão passar a ser
as seis da noite.
os dias vão ficar
pequenininhos.
vou sair do trabalho
já de noite.

(...)

tenho pena.
hoje tenho
muita pena.
talvez
por ser
domingo.

(...suspiro...)



16.10.09

tossiu
tossiu
tossiu

e a maçã lá saiu.

12.10.09

a menina e a maçã

a menina
coitadinha
fartava-se de tossir
para tirar
aquele bocado de maçã da garganta.
mas
o safado
teimava em não sair.

11.10.09

todo cambia





Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Pero no cambia mi amor...