a luz do sol poente a bater nas fachadas dos edifícios lisboetas. as papoilas vermelhas no início da primavera. o som do vento a passar de fininho nas persianas da escola. um estendal de roupa branca. pão quentinho com manteiga derretida. o cheiro do mar. O Beijo de Klimt. a pele de um bebé recém nascido. abraçar uma árvore milenar. um sorriso por entre a multidão. a fotografia de parentes distantes no tempo. o abraço apertado mata-saudade. o céu azul, já noite. a voz masculina a ler ao adormecer. os dedos das mãos a brincar por entre a relva. palavras ditas ao ouvido. duas ou três pessoas a despedirem-se emocionadamente na plataforma de campanhã. a água límpida do riacho do vale da teixeira a tocar a cara. uma maçã verde. um prado imenso a perder de vista. o cheiro dos lençóis lavados e passados a ferro. a cor da lua ainda próxima da linha do horizonte. a água a receber o corpo depois de um grande mergulho.
28.10.09
27.10.09
há dias XII
há dias em que conseguimos concretizar uma das grandes decisões de passagem de ano.
esses são grandes dias.
25.10.09
19.10.09
16.10.09
12.10.09
a menina e a maçã
a menina
coitadinha
fartava-se de tossir
para tirar
aquele bocado de maçã da garganta.
mas
o safado
teimava em não sair.
coitadinha
fartava-se de tossir
para tirar
aquele bocado de maçã da garganta.
mas
o safado
teimava em não sair.
11.10.09
todo cambia
Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo
Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante
Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera
Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente
Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Pero no cambia mi amor...
10.10.09
29.9.09
verões II
há verões que não queremos que acabem nunca e que estamos sempre a tentar que se prolonguem para além dos calendários e do tempo a passar e do trabalho que já começou.
[por mim, este ano, fazia as malas e ficava por lá no verão mais um pouco
- até o frio me vir lembrar que era tempo de voltar.]
há verões assim, em que temos tempo para viver muitas das aventuras e das emoções que procurávamos. em que usufruimos do sofá, da toalha de praia, da tenda, do saco cama, do banco do carro ou da carrinha e da terra. em que o coração vem cheio de pessoas e de imagens que não queremos largar.
[por isso, esta dificuldade em trocar o caderno de linhas por este monitor e estas teclas]
há verões que sabem mesmo bem.
22.9.09
6.8.09
She came from Greece she had a thirst for knowledge, she studied sculpture at Saint Martin's College, that's where I, caught her eye. She told me that her Dad was loaded, I said "In that case I'll have a rum and coca-cola. "She said "Fine." and in thirty seconds time she said, "I want to live like common people, I want to do whatever common people do, I want to sleep with common people, I want to sleep with common people, like you." Well what else could I do -I said "I'll see what I can do." I took her to a supermarket, I don't know why but I had to start it somewhere, so it started there. I said pretend you've got no money, she just laughed and said, "Oh you're so funny." I said "yeah? Well I can't see anyone else smiling in here. Are you sure you want to live like common people, you want to see whatever common people see, you want to sleep with common people, you want to sleep with common people, like me. "But she didn't understand, she just smiled and held my hand. Rent a flat above a shop, cut your hair and get a job. Smoke some fags and play some pool, pretend you never went to school. But still you'll never get it right, cos when you're laid in bed at night, watching roaches climb the wall, if you call your Dad he could stop it all. You'll never live like common people, you'll never do what common people do, you'll never fail like common people, you'll never watch your life slide out of view, and dance and drink and screw, because there's nothing else to do. Sing along with the common people, sing along and it might just get you through, laugh along with the common people, laugh along even though they're laughing at you, and the stupid things that you do. Because you think that poor is cool. Like a dog lying in a corner, they'll bite you and never warn you. Look out. They'll tear your insides out. 'Cause Everybody hates a tourist, especially one who thinksit's all such a laugh. Yeah, and the chip stains' greasewill come out in the bath. You will never understand how it feels to live your life with no meaning or control and with nowhere left to go.You're amazed that they existand they burn so bright, while you can only wonder why. I want to sleep with common people like you, I want to sleep with common people like you...
pulp
4.8.09
24.7.09
julho em lisboa
o tempo em lisboa aumenta em julho.
os carros começam a partir para férias, as ruas alargam, os lugares para estacionar crescem.
há fachadas de prédios que renascem e esplanadas que se vêm do outro lado da rua.
os passeios têm mais metros, os autocarros têm sempre lugar.
julho em lisboa é maravilhoso.
chega-se a tempo e tem-se mais tempo.
pode viver-se mais.
(não fosse a necessidade absoluta de férias,
elegia julho o melhor mês em lisboa)
os carros começam a partir para férias, as ruas alargam, os lugares para estacionar crescem.
há fachadas de prédios que renascem e esplanadas que se vêm do outro lado da rua.
os passeios têm mais metros, os autocarros têm sempre lugar.
julho em lisboa é maravilhoso.
chega-se a tempo e tem-se mais tempo.
pode viver-se mais.
(não fosse a necessidade absoluta de férias,
elegia julho o melhor mês em lisboa)
21.7.09
um dia começo a escrever horóscopos
"It isn't wise to wait for someone to change. What you see is what you get. If you have to make changes to build a better life, stop making excuses. Things rarely turn out the way you expect. Stand up for what you need each day. The future will take care of itself."
no fundo, basta incentivar as pessoas de cada signo a viver a sua vida bem vivida. e para isso há imensas frases que se podem sabiamente escrever.
16.7.09
coisas simples
16 de Julho. o único dia do ano em que falo com o meu irmão ao telefone e sei que ele me telefonará no dia a seguir. dizemos "então até amanhã!" e rimo-nos sempre. todos os anos.
15.7.09
13.7.09
1.7.09
escritos de rajada
"vamos amigos aqui à volta desta fogueira dar-nos todos como se estivessemos sozinhos e nada houvesse a prender-nos. vamos amigos nesta noite que finda dizer todas as palavras que ficaram engasgadas encravadas empancadas. vamos todos amigos abrir as portas as janelas as varandas e criar a nossa aldeia. vamos todos vamos. vamos mostrar que é possível a paz a alegria a coragem a vida. vamos amigos. façamos este último esforço. vamos. começo eu."
o orador contou então do arrepio que sentiu quando em plena caminhada se viu sem água sem comida e já sem força. contou então do medo que sentiu quando todos pareciam esmorecer no fim de três dias a tentar levantar o telhado. contou então das tristezas que passou com o seu coração despedaçado naquela tarde em que a rapariga loura lhe negou um beijo um abraço um carinho (a rapariga loura corou). contou que tivera sido ele a esgotar a bilha de gás à força de precisar de luz para acabar de escrever. foi interrompido pelo homem de bigode que houvera ficado com a responsabilidade de a repor e de como lhe doeram os pés por tê-la ido buscar montanha abaixo montanha acima. e da raiva que sentiu e de como partiria a cara da besta que o fez fazer aquele caminho. a voz era elevada e a face encarnada. o orador pediu desculpa pela cobardia do momento e ofereceu a cara. o homem do bigode usou-a mesmo. para um murro. um só murro. a rapariga do casaco vermelho tipo canadiana levantou-se e amparou o orador e falou da noite em que dormiu fora da casa porque alguém fechara a porta e se esquecera de que ela tinha descido a buscar o pão que faltava para a manhã seguinte. disse da pena que tinha de não ter vontade nem possibilidade de partir também ela a cara a alguém porque todos todos eram responsáveis por essa noite e do mal que lhe soubera aquele pão que ainda assim partilhou com todos. fez-se um silêncio. a menina das botas pediu licença para quebrar o silêncio mas que tinha de tirar lá do fundo do pensamento todas as discussões tidas cegamente com o rapaz das jardineiras e o homem do bigode sobre a melhor maneira de carregar os jerricãs de água para o cimento. e que sim lhe houvera custado trazê-los todos os dias e que não não tivera sido uma tarefa até gloriosa e que sim a arrogância a martelara nas costas nos braços nas pernas no orgulho. falava apressada. o orador riu abraçando-a e lembrando as sandes que haviam feito juntos para levar a quem estava já no trabalho das últimas telhas. o baixinho brincou com as estafetas feitas para que essas sandes chegassem lá acima intactas. a rapariga loura confessou o ciúme sentido por não ter sido ela a fazer as sandes e que o beijo pedido estava ainda por dar. o orador corou. e sorriu. o baixinho levantou-se e falou de pé porque queria mesmo ser ouvido sobre a decisão que tomara de partir no meio da jornada montanha abaixo para ver o jogo da final. de como a culpa o acompanhara no caminho e de como não era o jogo que o fazia descer mas a necessidade de estar sozinho e controlar um pouco dos seus dias. a rapariga loura invejou-lhe a coragem de ter ido por ter sentido também ela vontade de ir por aí e sentir-se a si mesma. que em vários momentos se deixou ir pelo grupo e que assim se sentira a viver uma vida que não era a sua e que sentira o seu lugar desnorteado e que nem sabia bem do espaço que tinha sido o seu porque definitivamente não o soubera criar e que as palavras foram ficando cada vez mais engasgadas e que o cansaço lhe pesava e que tudo o que queria para descansar era o abraço do orador. se ainda tinha para lho dar? o orador sorriu e docemente abriu-lhe os braços. no seu colo a rapariga loura respirou fundo. o rapaz das jardineiras puxou a guitarra e soou o que força é essa que trazes nos braços e o homem do bigode não pode deixar de sorrir contagiando as vozes. a menina das botas fechou os olhos e assim ficaram noite dentro cantando.
o orador contou então do arrepio que sentiu quando em plena caminhada se viu sem água sem comida e já sem força. contou então do medo que sentiu quando todos pareciam esmorecer no fim de três dias a tentar levantar o telhado. contou então das tristezas que passou com o seu coração despedaçado naquela tarde em que a rapariga loura lhe negou um beijo um abraço um carinho (a rapariga loura corou). contou que tivera sido ele a esgotar a bilha de gás à força de precisar de luz para acabar de escrever. foi interrompido pelo homem de bigode que houvera ficado com a responsabilidade de a repor e de como lhe doeram os pés por tê-la ido buscar montanha abaixo montanha acima. e da raiva que sentiu e de como partiria a cara da besta que o fez fazer aquele caminho. a voz era elevada e a face encarnada. o orador pediu desculpa pela cobardia do momento e ofereceu a cara. o homem do bigode usou-a mesmo. para um murro. um só murro. a rapariga do casaco vermelho tipo canadiana levantou-se e amparou o orador e falou da noite em que dormiu fora da casa porque alguém fechara a porta e se esquecera de que ela tinha descido a buscar o pão que faltava para a manhã seguinte. disse da pena que tinha de não ter vontade nem possibilidade de partir também ela a cara a alguém porque todos todos eram responsáveis por essa noite e do mal que lhe soubera aquele pão que ainda assim partilhou com todos. fez-se um silêncio. a menina das botas pediu licença para quebrar o silêncio mas que tinha de tirar lá do fundo do pensamento todas as discussões tidas cegamente com o rapaz das jardineiras e o homem do bigode sobre a melhor maneira de carregar os jerricãs de água para o cimento. e que sim lhe houvera custado trazê-los todos os dias e que não não tivera sido uma tarefa até gloriosa e que sim a arrogância a martelara nas costas nos braços nas pernas no orgulho. falava apressada. o orador riu abraçando-a e lembrando as sandes que haviam feito juntos para levar a quem estava já no trabalho das últimas telhas. o baixinho brincou com as estafetas feitas para que essas sandes chegassem lá acima intactas. a rapariga loura confessou o ciúme sentido por não ter sido ela a fazer as sandes e que o beijo pedido estava ainda por dar. o orador corou. e sorriu. o baixinho levantou-se e falou de pé porque queria mesmo ser ouvido sobre a decisão que tomara de partir no meio da jornada montanha abaixo para ver o jogo da final. de como a culpa o acompanhara no caminho e de como não era o jogo que o fazia descer mas a necessidade de estar sozinho e controlar um pouco dos seus dias. a rapariga loura invejou-lhe a coragem de ter ido por ter sentido também ela vontade de ir por aí e sentir-se a si mesma. que em vários momentos se deixou ir pelo grupo e que assim se sentira a viver uma vida que não era a sua e que sentira o seu lugar desnorteado e que nem sabia bem do espaço que tinha sido o seu porque definitivamente não o soubera criar e que as palavras foram ficando cada vez mais engasgadas e que o cansaço lhe pesava e que tudo o que queria para descansar era o abraço do orador. se ainda tinha para lho dar? o orador sorriu e docemente abriu-lhe os braços. no seu colo a rapariga loura respirou fundo. o rapaz das jardineiras puxou a guitarra e soou o que força é essa que trazes nos braços e o homem do bigode não pode deixar de sorrir contagiando as vozes. a menina das botas fechou os olhos e assim ficaram noite dentro cantando.
24.6.09
a vida afinal acontece muito de repente
"A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente - nunca ninguém nos avisou(...)"
Ondjaki
23.6.09
mas eu ainda não brinquei nada
lembro-me de ser pequena e achar que o tempo nunca era suficiente para tudo o que queria brincar. os meus pais chegavam, no fim de um dia ou de uma noite, com o sorriso de "está na hora de irmos" e eu, no meio de um monte de brinquedos espalhados, defendia-me imediatamente com a clássica frase "mas eu ainda não brinquei nada". queria sempre mais e esperava sempre ter energia para viver todas as brincadeiras que fossem possíveis, com o máximo de amigos que fosse possível.
aos trinta anos tenho a mesma sensação.
a mesma vontade de aproveitar tudo até ao limite. de inventar sempre mais coisas para aproveitar. de ter os amigos por perto.
ontem, no primeiro dia de verão, o maior dia do ano, senti uma vontade enorme de que ele fosse ainda maior e as horas aumentassem e eu tivesse tempo de passar por todos os sítios onde queria ter passado e de não ter de dizer a mim própria "está na hora de irmos".
até quando vou ter a sensação de que, apesar de ter brincado bastante, "ainda não brinquei nada"?
19.6.09
Life On Mars
(...)
Quantos sonhos já destruí
E deixei escapar das mãos
E se o futuro assim permitir
Não pretendo viver em vão
Meu amor não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
(...)
Quantos sonhos já destruí
E deixei escapar das mãos
E se o futuro assim permitir
Não pretendo viver em vão
Meu amor não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
(...)
(de cristina para cristina com um almoço pelo meio)
14.6.09
8.6.09
sarcáustico
um amigo cá de casa também anda a poupar palavras. por isso deixou de dizer sarcástico e cáustico em separado.
6.6.09
31.5.09
há dias VIII
há dias em que subimos ao sótão
escolhemos o que realmente interessa para contarmos a nossa história
e deitamos fora o que só está a ocupar o espaço do presente e do futuro.
esses dias são muito muito cheios.
24.5.09
inesperadamente
num determinado momento
inesperadamente
quando menos achamos que alguma coisa vai acontecer
surprendemo-nos
com as possibilidades criativas que há dentro de nós
com os mundos que conseguimos criar
com as voltas que conseguimos fazer o mundo dar
com as histórias que podemos alterar
com a incrível resistência que temos
com os limites que afinal são superiores ao que imaginávamos
inesperadamente
vem do mais fundo de nós uma voz acompanhar as nossas ideias e fazer-nos dançar
vem lá do fundinho uma força enorme tocar-nos o corpo todo
o corpo todo
e fazer-nos seguir os impulsos do que desejamos
inesperadamente
quando nos damos espaço para tudo poder acontecer
tudo começa realmente a querer acontecer
(de cristina para cristina com um fim de semana pelo meio)
17.5.09
mudanças
às vezes soa-nos que a vida não nos está a correr muito bem e criamos uma série de teorias para o facto de estarmos descontentes e chegamos a acreditar nelas e a ficar mesmo descontentes.
depois decidimos mudar os móveis da sala e volta a vontade de rir.
é espantoso como o segredo é simples.
depois decidimos mudar os móveis da sala e volta a vontade de rir.
é espantoso como o segredo é simples.
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