o orador contou então do arrepio que sentiu quando em plena caminhada se viu sem água sem comida e já sem força. contou então do medo que sentiu quando todos pareciam esmorecer no fim de três dias a tentar levantar o telhado. contou então das tristezas que passou com o seu coração despedaçado naquela tarde em que a rapariga loura lhe negou um beijo um abraço um carinho (a rapariga loura corou). contou que tivera sido ele a esgotar a bilha de gás à força de precisar de luz para acabar de escrever. foi interrompido pelo homem de bigode que houvera ficado com a responsabilidade de a repor e de como lhe doeram os pés por tê-la ido buscar montanha abaixo montanha acima. e da raiva que sentiu e de como partiria a cara da besta que o fez fazer aquele caminho. a voz era elevada e a face encarnada. o orador pediu desculpa pela cobardia do momento e ofereceu a cara. o homem do bigode usou-a mesmo. para um murro. um só murro. a rapariga do casaco vermelho tipo canadiana levantou-se e amparou o orador e falou da noite em que dormiu fora da casa porque alguém fechara a porta e se esquecera de que ela tinha descido a buscar o pão que faltava para a manhã seguinte. disse da pena que tinha de não ter vontade nem possibilidade de partir também ela a cara a alguém porque todos todos eram responsáveis por essa noite e do mal que lhe soubera aquele pão que ainda assim partilhou com todos. fez-se um silêncio. a menina das botas pediu licença para quebrar o silêncio mas que tinha de tirar lá do fundo do pensamento todas as discussões tidas cegamente com o rapaz das jardineiras e o homem do bigode sobre a melhor maneira de carregar os jerricãs de água para o cimento. e que sim lhe houvera custado trazê-los todos os dias e que não não tivera sido uma tarefa até gloriosa e que sim a arrogância a martelara nas costas nos braços nas pernas no orgulho. falava apressada. o orador riu abraçando-a e lembrando as sandes que haviam feito juntos para levar a quem estava já no trabalho das últimas telhas. o baixinho brincou com as estafetas feitas para que essas sandes chegassem lá acima intactas. a rapariga loura confessou o ciúme sentido por não ter sido ela a fazer as sandes e que o beijo pedido estava ainda por dar. o orador corou. e sorriu. o baixinho levantou-se e falou de pé porque queria mesmo ser ouvido sobre a decisão que tomara de partir no meio da jornada montanha abaixo para ver o jogo da final. de como a culpa o acompanhara no caminho e de como não era o jogo que o fazia descer mas a necessidade de estar sozinho e controlar um pouco dos seus dias. a rapariga loura invejou-lhe a coragem de ter ido por ter sentido também ela vontade de ir por aí e sentir-se a si mesma. que em vários momentos se deixou ir pelo grupo e que assim se sentira a viver uma vida que não era a sua e que sentira o seu lugar desnorteado e que nem sabia bem do espaço que tinha sido o seu porque definitivamente não o soubera criar e que as palavras foram ficando cada vez mais engasgadas e que o cansaço lhe pesava e que tudo o que queria para descansar era o abraço do orador. se ainda tinha para lho dar? o orador sorriu e docemente abriu-lhe os braços. no seu colo a rapariga loura respirou fundo. o rapaz das jardineiras puxou a guitarra e soou o que força é essa que trazes nos braços e o homem do bigode não pode deixar de sorrir contagiando as vozes. a menina das botas fechou os olhos e assim ficaram noite dentro cantando.
1.7.09
escritos de rajada
o orador contou então do arrepio que sentiu quando em plena caminhada se viu sem água sem comida e já sem força. contou então do medo que sentiu quando todos pareciam esmorecer no fim de três dias a tentar levantar o telhado. contou então das tristezas que passou com o seu coração despedaçado naquela tarde em que a rapariga loura lhe negou um beijo um abraço um carinho (a rapariga loura corou). contou que tivera sido ele a esgotar a bilha de gás à força de precisar de luz para acabar de escrever. foi interrompido pelo homem de bigode que houvera ficado com a responsabilidade de a repor e de como lhe doeram os pés por tê-la ido buscar montanha abaixo montanha acima. e da raiva que sentiu e de como partiria a cara da besta que o fez fazer aquele caminho. a voz era elevada e a face encarnada. o orador pediu desculpa pela cobardia do momento e ofereceu a cara. o homem do bigode usou-a mesmo. para um murro. um só murro. a rapariga do casaco vermelho tipo canadiana levantou-se e amparou o orador e falou da noite em que dormiu fora da casa porque alguém fechara a porta e se esquecera de que ela tinha descido a buscar o pão que faltava para a manhã seguinte. disse da pena que tinha de não ter vontade nem possibilidade de partir também ela a cara a alguém porque todos todos eram responsáveis por essa noite e do mal que lhe soubera aquele pão que ainda assim partilhou com todos. fez-se um silêncio. a menina das botas pediu licença para quebrar o silêncio mas que tinha de tirar lá do fundo do pensamento todas as discussões tidas cegamente com o rapaz das jardineiras e o homem do bigode sobre a melhor maneira de carregar os jerricãs de água para o cimento. e que sim lhe houvera custado trazê-los todos os dias e que não não tivera sido uma tarefa até gloriosa e que sim a arrogância a martelara nas costas nos braços nas pernas no orgulho. falava apressada. o orador riu abraçando-a e lembrando as sandes que haviam feito juntos para levar a quem estava já no trabalho das últimas telhas. o baixinho brincou com as estafetas feitas para que essas sandes chegassem lá acima intactas. a rapariga loura confessou o ciúme sentido por não ter sido ela a fazer as sandes e que o beijo pedido estava ainda por dar. o orador corou. e sorriu. o baixinho levantou-se e falou de pé porque queria mesmo ser ouvido sobre a decisão que tomara de partir no meio da jornada montanha abaixo para ver o jogo da final. de como a culpa o acompanhara no caminho e de como não era o jogo que o fazia descer mas a necessidade de estar sozinho e controlar um pouco dos seus dias. a rapariga loura invejou-lhe a coragem de ter ido por ter sentido também ela vontade de ir por aí e sentir-se a si mesma. que em vários momentos se deixou ir pelo grupo e que assim se sentira a viver uma vida que não era a sua e que sentira o seu lugar desnorteado e que nem sabia bem do espaço que tinha sido o seu porque definitivamente não o soubera criar e que as palavras foram ficando cada vez mais engasgadas e que o cansaço lhe pesava e que tudo o que queria para descansar era o abraço do orador. se ainda tinha para lho dar? o orador sorriu e docemente abriu-lhe os braços. no seu colo a rapariga loura respirou fundo. o rapaz das jardineiras puxou a guitarra e soou o que força é essa que trazes nos braços e o homem do bigode não pode deixar de sorrir contagiando as vozes. a menina das botas fechou os olhos e assim ficaram noite dentro cantando.
24.6.09
a vida afinal acontece muito de repente
"A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente - nunca ninguém nos avisou(...)"
23.6.09
mas eu ainda não brinquei nada
lembro-me de ser pequena e achar que o tempo nunca era suficiente para tudo o que queria brincar. os meus pais chegavam, no fim de um dia ou de uma noite, com o sorriso de "está na hora de irmos" e eu, no meio de um monte de brinquedos espalhados, defendia-me imediatamente com a clássica frase "mas eu ainda não brinquei nada". queria sempre mais e esperava sempre ter energia para viver todas as brincadeiras que fossem possíveis, com o máximo de amigos que fosse possível.
ontem, no primeiro dia de verão, o maior dia do ano, senti uma vontade enorme de que ele fosse ainda maior e as horas aumentassem e eu tivesse tempo de passar por todos os sítios onde queria ter passado e de não ter de dizer a mim própria "está na hora de irmos".
até quando vou ter a sensação de que, apesar de ter brincado bastante, "ainda não brinquei nada"?
19.6.09
Life On Mars
Quantos sonhos já destruí
E deixei escapar das mãos
E se o futuro assim permitir
Não pretendo viver em vão
Meu amor não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
(...)
(de cristina para cristina com um almoço pelo meio)
14.6.09
8.6.09
sarcáustico
6.6.09
31.5.09
há dias VIII
há dias em que subimos ao sótão
escolhemos o que realmente interessa para contarmos a nossa história
e deitamos fora o que só está a ocupar o espaço do presente e do futuro.
esses dias são muito muito cheios.
24.5.09
inesperadamente
num determinado momento
inesperadamente
quando menos achamos que alguma coisa vai acontecer
surprendemo-nos
com as possibilidades criativas que há dentro de nós
com os mundos que conseguimos criar
com as voltas que conseguimos fazer o mundo dar
com as histórias que podemos alterar
com a incrível resistência que temos
com os limites que afinal são superiores ao que imaginávamos
inesperadamente
vem do mais fundo de nós uma voz acompanhar as nossas ideias e fazer-nos dançar
vem lá do fundinho uma força enorme tocar-nos o corpo todo
o corpo todo
e fazer-nos seguir os impulsos do que desejamos
inesperadamente
quando nos damos espaço para tudo poder acontecer
tudo começa realmente a querer acontecer
(de cristina para cristina com um fim de semana pelo meio)
17.5.09
mudanças
depois decidimos mudar os móveis da sala e volta a vontade de rir.
é espantoso como o segredo é simples.
12.5.09
11.5.09
Sempre Foi Assim
Corre, corre meu menino
estica o peito para a frente
mete pernas ao caminho
meu dezreizinhos de gente
e até mais ver
Mete pernas pelo mundo
escreve de terras distantes
um postal de vez em quando
p´ra lembrar como era dantes
e até mais ver
Anda comigo
e já vais ver que não te minto
quando digo
que já sinto
o que vai ser
em nós diferente
Sempre foi assim
dizem
sempre foi assim
sempre foi assim
mas está a ser diferente
Atende em todos os lugares
no que muda e no que não
andes lá por onde andares
escolhe bem o teu irmão
e até mais ver
Não há só irmão de leite
não há só irmãos de vinho
aceita quem te quer aceite
escolhe, escolhe meu menino
e até mais ver
anda comigo
e já vais ver que não te minto
quando digo
que já sinto
o que vai ser
em nós diferente
Sempre foi assim
dizem
sempre foi assim
sempre foi assim
mas está a ser diferente
Tempo, tempo já passou
E gente como tu crescendo
dá-me força no que sou
para ser o que vou sendo
e até mais ver
Tempo, tempo que vier
há-de ser p´ra ti diferente
luta, luta meu amor
meu dezreizinhos de gente
e até mais ver
Anda comigo
E já vais ver que não te minto
quando digo
que já sinto
o que vai ser
em nós diferente
Sempre foi assim
dizem
sempre foi assim
sempre foi assim
mas está a ser diferente
Sérgio Godinho
5.5.09
4.5.09
3.5.09
monólogo curto
haliwuhajhgfhbvsuytksbgkdjbdjgksuytlaxmcnbvh eusl uewuig ugelugnb suiefbsgseb uesgiug klhgagrhgarh iareonrlkzngir irnhzlzinlbi inffstreepmbxmbvxlçhg jguudlasgsgbsghg.
28.4.09
correr II
corremos muito.
sempre gostei mais de caminhar do que de correr.
talvez seja melhor voltar a esse prazer.
talvez não seja preciso correr tanto.
27.3.09
alguém cantando
Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando ao longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir
Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como quer pra ninguém
A voz, de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda pureza
Da natureza
23.3.09
há dias VI
6.3.09
3.3.09
a minha avó
quando o mês de março entra no calendário lembro-me sempre da minha avó por ter sido o mês em que ela morreu. hoje, numa conferência, o Daniel Sampaio falava da importância da relação avós-netos e a minha cabeça encheu-se de recordações que me trouxeram uma saudade imensa. então, hoje, passados cinco anos, voltei a ler uma carta que me escrevi a mim, no dia em que ela morreu, para ter a certeza de que não me iria nunca esquecer de como éramos. de como ela era e eu a via. uma carta também para ela, na ânsia de não me estar a despedir.
hoje tenho saudades dela.
A minha avó limpava os caixotes de lixo e contava as moscas que matava.
A minha avó rezava alto e pedia protecção para nós todos e para os seus amigos.
A minha avó levava-me à missa e, quando não pode mais ir, ouvia-a cada vez mais alto na televisão, porque os seus ouvidos ouviam cada vez menos.
A minha avó sabia muitas palavras e dizia "bou buer um bucuado d´áuga".
A minha avó sabia todos os medicamentos que tinha que tomar e era ela quem os contava e trazia para a mesa.
Fez de mim sua cabeleireira quando, ao não poder mais fazer o seu carrapito sozinha, me pediu que lhe cortasse o cabelo curtinho.
Fez de mim seu boletim informativo quando deixou de conseguir ler o jornal e me pedia que o fizesse.
A minha avó teve graças para dizer até ao último momento.
A minha avó era muito teimosa, muito casmurra. Viveu até ao fim. Tratou de si até o coração lhe pedir "Bina, deixa-me descansar."
Sabia o que tinha deixado por fazer e disse algumas vezes que "o milho ficou por debulhar em casa da Tia Clara."
A minha avó ralhava, era intransigente, mandona. Tinha muitas zangas com ela. Ouvia conversas. Criticava os meus amigos. Falava das horas a que eu chegava. Mas eu sei que gostava muito de mim e eu sei que também gostava muito dela. Pena os silêncios. Pena as horas não aproveitadas. Os dias não aproveitados.
A minha avó ensinou-me a coragem de viver e de lutar e só hoje é que eu percebi. Nos seus últimos dias no hospital, recusou-se a ter mais tubos e máscaras. "Eu estou melhor sem isto" - dizia ela da máscara. Amarraram-lhe as mãos e os pés. À minha avó, que quis andar sempre e deixar o tempo passar no seu corpo. Mas, na falta da sua integridade, tenho a certeza que ela decidiu a sua hora, como sempre decidiu tudo na sua vida.
Viveu os últimos anos em casa sem enlouquecer. Sempre ligada à vida terrena e aos dias que passavam.
Despedi-me dela no dia 9 de março.
Disse-me "Vai com Deus" e, pela primeira vez, parecendo que adivinhava, respondi-lhe "Fique com Deus, avó"
Vem amanhã.
Não viu o Lombomeão pela última vez. A sua terra. A sua vida.
A minha avó foi embora num dia de sol quentinho. Num daqueles dias em que ela gostava de se sentar no pátio e ficar a olhar, por baixo do seu chapéu, o quintal a que se dedicou sempre.
Apertou-me a mão com força a última vez que a vi e procurou o meu olhar. Explicou-me exactamente o que se deve fazer para que as plantas não passem sede. E ficou a olhar para mim. Despedimo-nos assim com o olhar uma na outra.
Avozinha, descansa agora em paz. Não sejas tão teimosa aí desse lado. Trata bem as pessoas como tu sabes fazer. Conversa com a Alzira e manda-lhe beijos meus. Não te zangues por não te termos contado do tio João... queríamos ter-te mais um bocadinho.
Prometo-te, avó, que vou tentar tratar da nossa família.
Um beijo muito grande até à eternidade."
26.2.09
Road To Nowhere
Well we know where we're going
But we don't know where we've been
And we know what we're knowing
But we can't say what we've seen
And we're not little children
And we know what we want
And the future is certain
Give us time to work it out
Ye-ah
We're on a road to nowhere
Come on inside
Taking that ride to nowhere
We'll take that ride
I'm feeling okay this morning
And you know
We're on the road to paradise
Here we go, here we go
We're on a ride to nowhere
Come on inside
Taking that ride to nowhere
We'll take that ride
Maybe you wonder where you are
I don't care
Here is where time is on our side
Take you there, take you there
We're on a road to nowhere (ha! ha!)
We're on a road to nowhere (ha! ha!)
We're on a road to nowhere (ha! ha!)
There's a city in my mind
Come along and take that ride
And it's all right, baby, it's all right
And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right
Would you like to come along
You can help me sing this song
And it's all right, baby, it's all right
They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right
There's a city in my mind
Come along and take that ride
And it's all right, baby, it's all right
And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right
And would you like to come along
You can help me sing this song
And it's all right, baby, it's all right
They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right
We're on a road to nowhere (hey!)
We're on a road to nowhere (heugh!)
We're on a road to nowhere (ha! ha!)
We're on a road to nowhere
[ from the album "Little Creatures" (1985) ]