6.6.09

relíquias...


... partilhadas há poucos dias numa sala de uma casa lisboeta já sem cassete ou uma espera imensa pelo top+. já sem os quinze anos. sem os amigos dos quinze anos. com amigos que não estiveram nos meus quinze anos mas era como se estivessem estado.
...sempre boas de revisitar.

31.5.09

há dias VIII



há dias em que subimos ao sótão
escolhemos o que realmente interessa para contarmos a nossa história
e deitamos fora o que só está a ocupar o espaço do presente e do futuro.
esses dias são muito muito cheios.




24.5.09

inesperadamente





num determinado momento

inesperadamente
quando menos achamos que alguma coisa vai acontecer

surprendemo-nos

com as possibilidades criativas que há dentro de nós
com os mundos que conseguimos criar
com as voltas que conseguimos fazer o mundo dar
com as histórias que podemos alterar
com a incrível resistência que temos
com os limites que afinal são superiores ao que imaginávamos

inesperadamente

vem do mais fundo de nós uma voz acompanhar as nossas ideias e fazer-nos dançar
vem lá do fundinho uma força enorme tocar-nos o corpo todo
o corpo todo
e fazer-nos seguir os impulsos do que desejamos

inesperadamente

quando nos damos espaço para tudo poder acontecer
tudo começa realmente a querer acontecer



(de cristina para cristina com um fim de semana pelo meio)


17.5.09



riquinha, resolvi realizar uma remodelação...


(x. e c.)



(é talvez das coisas mais divertidas
falar com frases onde as palavras
começam todas com a mesma letra)



mudanças

às vezes soa-nos que a vida não nos está a correr muito bem e criamos uma série de teorias para o facto de estarmos descontentes e chegamos a acreditar nelas e a ficar mesmo descontentes.
depois decidimos mudar os móveis da sala e volta a vontade de rir.
é espantoso como o segredo é simples.

12.5.09

há dias VII



há dias em que não encontramos o nosso lugar.


11.5.09

Sempre Foi Assim


Corre, corre meu menino
estica o peito para a frente
mete pernas ao caminho
meu dezreizinhos de gente
e até mais ver

Mete pernas pelo mundo
escreve de terras distantes
um postal de vez em quando
p´ra lembrar como era dantes
e até mais ver

Anda comigo
e já vais ver que não te minto
quando digo
que já sinto
o que vai ser
em nós diferente

Sempre foi assim
dizem
sempre foi assim
sempre foi assim
mas está a ser diferente

Atende em todos os lugares
no que muda e no que não
andes lá por onde andares
escolhe bem o teu irmão
e até mais ver

Não há só irmão de leite
não há só irmãos de vinho
aceita quem te quer aceite
escolhe, escolhe meu menino
e até mais ver
anda comigo
e já vais ver que não te minto
quando digo
que já sinto
o que vai ser
em nós diferente

Sempre foi assim
dizem
sempre foi assim
sempre foi assim
mas está a ser diferente

Tempo, tempo já passou
E gente como tu crescendo
dá-me força no que sou
para ser o que vou sendo
e até mais ver

Tempo, tempo que vier
há-de ser p´ra ti diferente
luta, luta meu amor
meu dezreizinhos de gente
e até mais ver

Anda comigo
E já vais ver que não te minto
quando digo
que já sinto
o que vai ser
em nós diferente

Sempre foi assim
dizem
sempre foi assim
sempre foi assim
mas está a ser diferente


Sérgio Godinho

5.5.09

vasco



se eu tivesse nascido rapaz era o nome que teria tido por causa deste vasco.



3.5.09

diálogo curto




- o que é que aconteceu ao mundo que não está a ser capaz de gerar carinho?
- hum...

monólogo curto





haliwuhajhgfhbvsuytksbgkdjbdjgksuytlaxmcnbvh
eusl uewuig ugelugnb suiefbsgseb uesgiug klhgagrhgarh iareonrlkzngir irnhzlzinlbi inffstreepmbxmbvxlçhg jguudlasgsgbsghg.



28.4.09

correr II

o tempo passa a correr ou somos nós que corremos tanto que o tempo passa mais depressa?

corremos tanto. corremos todos os dias.

para chegar a horas ao trabalho. para apanhar a loja aberta. para conseguir dar conta das sete tarefas a que nos propusemos. para não perder aquele café com o amigo. para lanchar com calma. para não começar a fazer a digestão antes do banho que tem de ser tomado. para chegar ao jantar por que tanto ansiámos. para não sentirmos que não estamos a fazer nada. para aproveitar as oportunidades que nos são dadas e que achamos que não podemos mesmo perder.

corremos demais às vezes.
corremos muito.

sempre gostei mais de caminhar do que de correr.

talvez seja melhor voltar a esse prazer.
talvez não seja preciso correr tanto.

27.3.09

alguém cantando

numa sala de jardim de infância uma educadora canta e duas crianças acompanham à pandeireta. as outras crianças fazem nascer um silêncio absoluto.
é quase tão bom de se ouvir.







Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando ao longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir

Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como quer pra ninguém

A voz, de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda pureza
Da natureza
Onde não ha pecado nem perdão

23.3.09

há dias VI



há dias em que chegamos de grandes viagens e temos de nos dar tempo para desfazer as malas.


6.3.09

burruim

cá em casa andamos a poupar palavras. por isso deixámos de dizer burra e ruim em separado.

3.3.09

a minha avó



quando o mês de março entra no calendário lembro-me sempre da minha avó por ter sido o mês em que ela morreu. hoje, numa conferência, o Daniel Sampaio falava da importância da relação avós-netos e a minha cabeça encheu-se de recordações que me trouxeram uma saudade imensa. então, hoje, passados cinco anos, voltei a ler uma carta que me escrevi a mim, no dia em que ela morreu, para ter a certeza de que não me iria nunca esquecer de como éramos. de como ela era e eu a via. uma carta também para ela, na ânsia de não me estar a despedir.

hoje tenho saudades dela.



"14 Março 2004


Foi hoje embora a minha avó.
Com 94 anos.
Foi juntar-se à terra. Foi juntar-se a Deus.
Entendia-se muito bem com eles.
Da terra sabia muitos segredos. Com Deus tinha um entendimento tão grande que soube esperar e, finalmente, pedir-he que a juntasse a Si - começava já a ficar zangada com Ele por nunca mais a ouvir.
A minha avó sabia muitas coisas. Sabia provérbios que batiam sempre certo com a realidade. Sabia ler. Sabia o tempo que ia fazer. Sabia falar com as plantas. Sabia como fazer as galinhas sentirem-se umas rainhas.
A minha avó limpava os caixotes de lixo e contava as moscas que matava.
A minha avó rezava alto e pedia protecção para nós todos e para os seus amigos.
A minha avó levava-me à missa e, quando não pode mais ir, ouvia-a cada vez mais alto na televisão, porque os seus ouvidos ouviam cada vez menos.
A minha avó sabia muitas palavras e dizia "bou buer um bucuado d´áuga".
A minha avó sabia todos os medicamentos que tinha que tomar e era ela quem os contava e trazia para a mesa.
Fez de mim sua cabeleireira quando, ao não poder mais fazer o seu carrapito sozinha, me pediu que lhe cortasse o cabelo curtinho.
Fez de mim seu boletim informativo quando deixou de conseguir ler o jornal e me pedia que o fizesse.
A minha avó teve graças para dizer até ao último momento.
A minha avó era muito teimosa, muito casmurra. Viveu até ao fim. Tratou de si até o coração lhe pedir "Bina, deixa-me descansar."
Sabia o que tinha deixado por fazer e disse algumas vezes que "o milho ficou por debulhar em casa da Tia Clara."
A minha avó ralhava, era intransigente, mandona. Tinha muitas zangas com ela. Ouvia conversas. Criticava os meus amigos. Falava das horas a que eu chegava. Mas eu sei que gostava muito de mim e eu sei que também gostava muito dela. Pena os silêncios. Pena as horas não aproveitadas. Os dias não aproveitados.
A minha avó ensinou-me a coragem de viver e de lutar e só hoje é que eu percebi. Nos seus últimos dias no hospital, recusou-se a ter mais tubos e máscaras. "Eu estou melhor sem isto" - dizia ela da máscara. Amarraram-lhe as mãos e os pés. À minha avó, que quis andar sempre e deixar o tempo passar no seu corpo. Mas, na falta da sua integridade, tenho a certeza que ela decidiu a sua hora, como sempre decidiu tudo na sua vida.
Viveu os últimos anos em casa sem enlouquecer. Sempre ligada à vida terrena e aos dias que passavam.
Despedi-me dela no dia 9 de março.
Disse-me "Vai com Deus" e, pela primeira vez, parecendo que adivinhava, respondi-lhe "Fique com Deus, avó"
Vem amanhã.
Não viu o Lombomeão pela última vez. A sua terra. A sua vida.
A minha avó foi embora num dia de sol quentinho. Num daqueles dias em que ela gostava de se sentar no pátio e ficar a olhar, por baixo do seu chapéu, o quintal a que se dedicou sempre.
Apertou-me a mão com força a última vez que a vi e procurou o meu olhar. Explicou-me exactamente o que se deve fazer para que as plantas não passem sede. E ficou a olhar para mim. Despedimo-nos assim com o olhar uma na outra.
Avozinha, descansa agora em paz. Não sejas tão teimosa aí desse lado. Trata bem as pessoas como tu sabes fazer. Conversa com a Alzira e manda-lhe beijos meus. Não te zangues por não te termos contado do tio João... queríamos ter-te mais um bocadinho.
Prometo-te, avó, que vou tentar tratar da nossa família.
Um beijo muito grande até à eternidade."

26.2.09

Road To Nowhere




Well we know where we're going
But we don't know where we've been
And we know what we're knowing
But we can't say what we've seen
And we're not little children
And we know what we want
And the future is certain
Give us time to work it out

Ye-ah

We're on a road to nowhere
Come on inside
Taking that ride to nowhere
We'll take that ride

I'm feeling okay this morning
And you know
We're on the road to paradise
Here we go, here we go

We're on a ride to nowhere
Come on inside
Taking that ride to nowhere
We'll take that ride

Maybe you wonder where you are
I don't care
Here is where time is on our side
Take you there, take you there

We're on a road to nowhere (ha! ha!)
We're on a road to nowhere (ha! ha!)
We're on a road to nowhere (ha! ha!)

There's a city in my mind
Come along and take that ride
And it's all right, baby, it's all right

And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right

Would you like to come along
You can help me sing this song
And it's all right, baby, it's all right

They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right

There's a city in my mind
Come along and take that ride
And it's all right, baby, it's all right

And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right

And would you like to come along
You can help me sing this song
And it's all right, baby, it's all right

They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right

We're on a road to nowhere (hey!)
We're on a road to nowhere (heugh!)
We're on a road to nowhere (ha! ha!)

We're on a road to nowhere


Talking Heads

[ from the album "Little Creatures" (1985) ]

24.2.09




hoje soube-me a tanto
portanto
hoje soube-me a pouco



11.2.09

querinda

cá em casa andamos a poupar palavras. por isso deixámos de dizer querida e linda em separado.

linkar para não plagiar

já há muito tempo que o meu irmão sabe dizer coisas que eu sinto mas que não sei explicar. para não o plagiar, linko-o.

9.2.09

correr

se temos um encontro marcado, subimos a rua a correr para acompanhar o ritmo do coração ou porque está a chover?

8.2.09

ilhas

se formos mesmo ilhas, como alguém disse alguma vez, então que saibamos criar maneira de nos sentirmos abraçados ainda que nunca nos toquemos. que desenhemos linhas invisíveis que nos façam sentir o calor, a humidade, o relevo de cada uma. que haja sempre uma forma de cada uma saber a história verdadeira da outra. que, mesmo no meio dos dias enublados, consigamos sentir que as outras lá estão. se formos mesmo ilhas que aproveitemos esse espaço que nos separa das outras ilhas para nos vermos e vermos os outras ilhas com a distância que é preciso para não nos confundirmos umas com as outras e nos conseguirmos apreciar. se formos mesmo ilhas, cuidemos com carinho da vegetação, das danças e pratos típicos, das aldeias, vilas e cidades que criamos. tenhamos cuidado com o turismo para não perdermos a naturalidade e a espontaneidade das nossas praias e montanhas e dos percursos entre elas. se formos mesmo ilhas, que façamos festas no verão e nos protejamos das tempestades de inverno. e caso uma delas nos derrube as àrvores e as casas, que aproveitemos a força da natureza para nos reconstruirmos e não deixarmos de ser uma ilha.

3.2.09

o vento enfim parou já mal o vejo pois sobre o tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece



sérgio godinho

20.1.09

posse

a minha casa. o meu carro. o meu trabalho. os meus livros. a minha música favorita. a minha escova de dentes. os meus pais. o meu irmão. os meus amigos. os meus amores. os meus meninos. a minha escola. as minhas colegas. os meus vizinhos. os meus passeios. as minhas memórias. os meus desejos. possuimos tudo o que nos rodeia. incrível. fazemos de tudo propriedade privada. queremos que as coisas sejam nossas. que nos perteçam para a nossa vida ser cheia.

e nem tudo é nosso, não. o que está à nossa volta pertence a si mesmo. tem vida própria. e é uma liberdade muito grande aceitar isto.

14.1.09

dentes

"tenho um dente a cair" - dizia-me hoje a C. com cinco anos.
"e eu também..." - pensei eu com trinta.

11.1.09

imagens

o sol a pôr-se na esplanada da Graça e a lua a nascer por entre os prédios do largo da Graça.
os dois muito gordos e grandes e cor de laranja.
quase a conseguirem ver-se.

4.1.09

carta II

querida amiga,

entrei agora no teu quarto e voltei a reparar nos cantos onde costumas acumular tudo e mais alguma coisa.
estás mais uma vez de parabéns!
pela decisão que tomaste de começar o ano com tudo arrumado e, para além disso, com coisas deitadas fora. sei que houve dias em que o fizeste a martelo. sei que não ficaste muito contente com o resultado e esperavas que a limpeza fosse maior, mas está muito bem. está realmente bem.


um abraço apertado.

p.s - podias só dar um jeitinho na mesinha de cabeceira. tem para lá umas coisas que dão cabo da cabeça de qualquer pessoa que queira limpar o pó.

3.1.09

top five

inventado para distinguir os melhores em diversas categorias,
o top five é um pequeno brinde a alguns momentos da nossa vida.
o top five é reviver e rever imagens.
é procurar memórias boas ou más.
é eleger momentos, objectos, pessoas.
levado ao extremo, é procurar o essencial.
o top five é um fim de tarde.
o top five, feito em conjunto, cria cumplicidade, proximidade, amizade.
pode transformar-se num top ten, num top three.
numa conversa.
partilhar um top five pode criar um novo momento de top five.
a todos os que fizeram um top five comigo ou fizeram parte dos momentos de top five,
um brinde gigante.
feliz 2009!


15.12.08

um pequeno corpo grande

desenharam-me a silhueta num papel de cenário. com mil cuidados, garantindo que iria ficar o mais perfeito e parecido possível com aquilo que sou. enquanto a mão contornava o meu perfil, pensava em como seria o meu corpo ali marcado, deitado. levantei-me cheia de expectativas.
"oh!"
surpreendentemente, apesar de toda a vida ter sido assim, senti-me incrivelmente baixinha. pela primeira vez, olhei-me de cima, deitada no chão e percebi o espaço que ocupo quando me deito. esta sensação foi espantosa porque me deu a sensação de que sou maior do que o meu espaço corporal. de que o meu corpo tem uma projecção maior do que aquela que acaba aqui no limite da minha pele. que afinal me sinto grande, apesar de pequena.
devíamos todos, de tempos a tempos, ter esta maravilhosa sensação de que somos maiores do que pensamos, de que ocupamos mais espaço do que o nosso corpo limita.
"ando sem tempanada e com tudo empanado"
(ao jantar com a x.)