se temos um encontro marcado, subimos a rua a correr para acompanhar o ritmo do coração ou porque está a chover?
9.2.09
8.2.09
ilhas
se formos mesmo ilhas, como alguém disse alguma vez, então que saibamos criar maneira de nos sentirmos abraçados ainda que nunca nos toquemos. que desenhemos linhas invisíveis que nos façam sentir o calor, a humidade, o relevo de cada uma. que haja sempre uma forma de cada uma saber a história verdadeira da outra. que, mesmo no meio dos dias enublados, consigamos sentir que as outras lá estão. se formos mesmo ilhas que aproveitemos esse espaço que nos separa das outras ilhas para nos vermos e vermos os outras ilhas com a distância que é preciso para não nos confundirmos umas com as outras e nos conseguirmos apreciar. se formos mesmo ilhas, cuidemos com carinho da vegetação, das danças e pratos típicos, das aldeias, vilas e cidades que criamos. tenhamos cuidado com o turismo para não perdermos a naturalidade e a espontaneidade das nossas praias e montanhas e dos percursos entre elas. se formos mesmo ilhas, que façamos festas no verão e nos protejamos das tempestades de inverno. e caso uma delas nos derrube as àrvores e as casas, que aproveitemos a força da natureza para nos reconstruirmos e não deixarmos de ser uma ilha.
3.2.09
20.1.09
posse
a minha casa. o meu carro. o meu trabalho. os meus livros. a minha música favorita. a minha escova de dentes. os meus pais. o meu irmão. os meus amigos. os meus amores. os meus meninos. a minha escola. as minhas colegas. os meus vizinhos. os meus passeios. as minhas memórias. os meus desejos. possuimos tudo o que nos rodeia. incrível. fazemos de tudo propriedade privada. queremos que as coisas sejam nossas. que nos perteçam para a nossa vida ser cheia.
e nem tudo é nosso, não. o que está à nossa volta pertence a si mesmo. tem vida própria. e é uma liberdade muito grande aceitar isto.
14.1.09
dentes
"tenho um dente a cair" - dizia-me hoje a C. com cinco anos.
"e eu também..." - pensei eu com trinta.
"e eu também..." - pensei eu com trinta.
11.1.09
imagens
o sol a pôr-se na esplanada da Graça e a lua a nascer por entre os prédios do largo da Graça.
os dois muito gordos e grandes e cor de laranja.
quase a conseguirem ver-se.
os dois muito gordos e grandes e cor de laranja.
quase a conseguirem ver-se.
4.1.09
carta II
querida amiga,
entrei agora no teu quarto e voltei a reparar nos cantos onde costumas acumular tudo e mais alguma coisa.
estás mais uma vez de parabéns!
pela decisão que tomaste de começar o ano com tudo arrumado e, para além disso, com coisas deitadas fora. sei que houve dias em que o fizeste a martelo. sei que não ficaste muito contente com o resultado e esperavas que a limpeza fosse maior, mas está muito bem. está realmente bem.
um abraço apertado.
p.s - podias só dar um jeitinho na mesinha de cabeceira. tem para lá umas coisas que dão cabo da cabeça de qualquer pessoa que queira limpar o pó.
entrei agora no teu quarto e voltei a reparar nos cantos onde costumas acumular tudo e mais alguma coisa.
estás mais uma vez de parabéns!
pela decisão que tomaste de começar o ano com tudo arrumado e, para além disso, com coisas deitadas fora. sei que houve dias em que o fizeste a martelo. sei que não ficaste muito contente com o resultado e esperavas que a limpeza fosse maior, mas está muito bem. está realmente bem.
um abraço apertado.
p.s - podias só dar um jeitinho na mesinha de cabeceira. tem para lá umas coisas que dão cabo da cabeça de qualquer pessoa que queira limpar o pó.
3.1.09
top five
inventado para distinguir os melhores em diversas categorias,
o top five é um pequeno brinde a alguns momentos da nossa vida.
o top five é reviver e rever imagens.
é procurar memórias boas ou más.
é eleger momentos, objectos, pessoas.
levado ao extremo, é procurar o essencial.
o top five é um fim de tarde.
o top five, feito em conjunto, cria cumplicidade, proximidade, amizade.
pode transformar-se num top ten, num top three.
numa conversa.
partilhar um top five pode criar um novo momento de top five.
a todos os que fizeram um top five comigo ou fizeram parte dos momentos de top five,
um brinde gigante.
feliz 2009!
15.12.08
um pequeno corpo grande
desenharam-me a silhueta num papel de cenário. com mil cuidados, garantindo que iria ficar o mais perfeito e parecido possível com aquilo que sou. enquanto a mão contornava o meu perfil, pensava em como seria o meu corpo ali marcado, deitado. levantei-me cheia de expectativas.
"oh!"
surpreendentemente, apesar de toda a vida ter sido assim, senti-me incrivelmente baixinha. pela primeira vez, olhei-me de cima, deitada no chão e percebi o espaço que ocupo quando me deito. esta sensação foi espantosa porque me deu a sensação de que sou maior do que o meu espaço corporal. de que o meu corpo tem uma projecção maior do que aquela que acaba aqui no limite da minha pele. que afinal me sinto grande, apesar de pequena.
devíamos todos, de tempos a tempos, ter esta maravilhosa sensação de que somos maiores do que pensamos, de que ocupamos mais espaço do que o nosso corpo limita.
26.11.08
o natal está a chegar
todos os anos gosto de ir ver as luzes de natal à baixa de lisboa. não é qualquer tipo de tradição de infância, mas é um gosto que tenho. as luzes podem tornar-se um elemento muito bonito numa cidade. há anos em que fico fascinada com algumas iluminações. pela maneira como complentam os edifícios, como se integram no espaço de praça, rua, avenida. como marcam o perfil das copas e dos troncos das àrvores. como dão brilho ao que sempre lá está.
este ano ouvi dizer que já tinham acendido as luzes e decidi, no fim do dia, dar a volta pelo outro lado e passar por lá. não tinha grandes expectativas porque nos últimos anos não me têm surpreendido muito... mas não estava à espera do terror que me esperava na praça do comércio e no rossio. não consigo descrever o que vi. um monte de elementos desconexos de várias instituições e um verdadeiro mamarracho no centro da praça que não se percebe se é a casa do duendes do pai natal ou uma loja de prendas.
tenho saudades da cidade bem iluminada. simples, mas bonita.
os grandes volumes não me encantam. e não me é importante saber quem os promoveu. até é despublicidade.
este ano ouvi dizer que já tinham acendido as luzes e decidi, no fim do dia, dar a volta pelo outro lado e passar por lá. não tinha grandes expectativas porque nos últimos anos não me têm surpreendido muito... mas não estava à espera do terror que me esperava na praça do comércio e no rossio. não consigo descrever o que vi. um monte de elementos desconexos de várias instituições e um verdadeiro mamarracho no centro da praça que não se percebe se é a casa do duendes do pai natal ou uma loja de prendas.
tenho saudades da cidade bem iluminada. simples, mas bonita.
os grandes volumes não me encantam. e não me é importante saber quem os promoveu. até é despublicidade.
25.11.08
frriiiioo
um friozinho entra pelos ossos, enregela os pés, as mãos e começa a tentar propagar-se pelo corpo. a falta de luvas leva as mãos aos bolsos, as meias insuficientes levam os pés a abanar. mas o frio continua e o corpo não resiste a encolher-se. vem o autocarro salvar-nos de uma situaão que parece impossível de sustentar por mais tempo. e quanto tempo se aguentaria ali?
6.11.08
5.11.08
há dias V
2.11.08
há dias IV
"Há dias em que me levanto com uma esperança demencial, momentos em que sinto que as possibilidades de uma vida mais humana estão ao alcance das nossas mãos. Hoje é um desses dias."
Ernesto Sabato, Resistir
Ernesto Sabato, Resistir
17.10.08
Irritações
Descobri que quando estamos proibidos de determinados hábitos que temos e gostamos e nos servem, muitas vezes, de compensação no fim de um dia de trabalho, no fim de uma reunião tensa, num momento de solidão, num momento de convívio ou qualquer outro em que busquemos o prazer... Descobri que, quando estamos proibidos dessas coisas, o melhor é assumirmos para nós mesmos e para os outros que se está irritado e, sim, não havia razão para tanta cabeça perdida e tanta falsa argumentação, mas ainda não se arranjou uma outra solução que não elevar a voz e fazer movimentos frenéticos para compensar essas coisas de que estamos proibidos e provavelmente nos acalmariam e, por favor, que nos desculpem.
15.10.08
passear com as crianças
da minha vida fazem parte muitas crianças. aquelas com quem trabalho todos os dias, aquelas com quem já trabalhei, os primos, os "sobrinhos", aquelas que encontro por aí, a minha própria infância cheia de outras crianças. faz parte dessa vida de criança uma vontade louca de movimento. de correr. de descobrir o que existe por aí . de fazer experiências. de ir, aos poucos, saindo do colo e desatar a andar e a ver. faz parte dessa vida o "fugir", o que querer saber o que está para além, mesmo que alguém tenha dito para não ir. faz parte a curiosidade. faz parte não querer andar sempre ao pé dos pais e ir ver o que está na outra prateleira do supermercado. e faz parte da vida dos adultos que as têm consigo usar o corpo - braços, pernas, tronco, cabeça, voz - para as fazer voltar quando é necessário. para encorajar as descobertas. para as fazer sentir que, mesmo indo mais além, onde não queriam que elas fossem, o seu corpo está sempre lá para as receber. faz parte uma confiança que vai nascendo, que se vai conquistando, que ambos os mundos estão lá. vai-se mais além mas não se foge. deixa-se ir, mas não se desliga. uma distância certa entre os corpos.
como é que um braço ou uma voz não chegam para passear com uma criança?
numa livraria de um centro comercial, um fina senhora passeava hoje a sua filha como quem passeia o seu cão. o meu vizinho do segundo andar tem uma trela fisionomicamente igual à que a menina trazia à volta do tronco. os meus olhos não conseguiam largar aquela imagem. uma trela... não sei se é este o termo usado para aquele objecto que ligava a senhora à menina, mas é o termo que consigo usar por ter um vizinho que usa um objecto igual para o seu cão. quando a menina se voltou de costas, apareceu a marca que produziu o objecto. pré-natal. a famosa marca de produtos para a infância.
a minha cabeça veio embora com essa imagem gravada. uma imensidão de sentimentos revoltos. a certeza de que o corpo tem de chegar para esta educação de passear com os filhos. com os filhos. com as crianças. não se passeiam as crianças. passeia-se com elas. dá-se-lhes as mãos. dá-se-lhes o colo. dá-se o corpo. dá-se-lhes a oportunidade de sentir que é bom tocar nos outros e senti-los por perto. dá-se-lhes a certeza que não importa onde estejam, é seguro, porque também lá estamos - com os nossos braços para as salvar de perigos, com a nossa voz para as chamar se forem longe demais.
não resisti a procurar pré-natal no google. um site muito bem organizado com imensos artigos sobre a infância que, com certeza, hão-de ajudar muitas mães em apuros. não encontrei as trelas, mas encontrei a filosofia. deu-me voltas ao estômago pensar que uma cambada de gente anda a ter reuniões para decidir que o melhor para solucionar os problemas das mães que não conseguem passear com os seus filhos é criar um objecto que as faça passeá-los como suas donas.
a pré-natal esteve em baixa.
aquela senhora esteve baixíssima.
e eu agradeci muito ter nascido na província e terem-me deixado brincar na rua, ir sozinha da escola para a hora de almoço. terem passeado comigo.
os tempos talvez estejam diferentes, mas havemos de lutar para podermos continuar a passear com as crianças.
8.10.08
hora
há uma hora do dia caótica para conduzir em lisboa. hora em que dá vontade de atropelar tudo o que aparece à frente e ir directamente aos senhores responsáveis e passar-lhes o carro para as mãos e dizer-lhes: "ora experimente lá ir para casa sem ficar com os nervos em franja!"
à hora do grande regresso a casa, a partir das seis e até para além das sete e meia, hora de lusco-fusco e anoitecer, os candeeiros da rua estão ainda apagados na maior parte das ruas do trajecto que faço ao fim do dia.
é uma aventura regressar a casa.
as ruas mais escuras ficam cheias de sombras estranhas que não se sabe se é uma bicicleta que aí vem, um peão que passeia o cão ou uma betoneira mal estacionada. os olhos deixam-se ofuscar com os carros da frente e, na falta de outra luz que os faça recuperar, passam os metros seguintes numa verdadeira obra de perspicácia a tentar voltar a ver no escuro, evitando feridos e amolgadelas e tentando distinguir se, de facto, é uma bcicleta, um cão ou uma betoneira. o corpo começa a ficar enrigecido pelo esforço acrescido da cabeça e dos olhos e pelo medo de não estar a ver tudo nem a medir bem os espaços. os carros mal estacionados que, à luz do dia são aborrecidos, tornam-se insuportáveis. os quatro piscas são um desespero de luz. o corpo, enrigecido como está, demora mais a fazer manobras. procurar estacionamento, se estiver difícil, torna-se desesperante. a boca começa a ganhar vontade de dizer palavrões...
o que vale é que, nesta altura, chego a casa.
uf!
é uma hora pequena, mas que se torna imensamente longa.
vou informar os responsáveis que, apesar dos relógios universais não o saberem, já saímos do verão e os dias estão mais pequenos e os candeeiros da rua deviam acender mais cedo. evita-se assim as más disposições de fim de dia.
(que coisa! será que eles não andam de carro a esta hora?)
30.9.08
Preciso Me Encontrar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar,
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar
Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Cartola
22.9.08
17.9.08
verões
há verões que são mais compridos que outros e verões que não queremos que acabem nunca e verões que já deviam ter acabado e verões que nos enchem ou preenchem o coração e verões assim e assado e verões em que chove e verões em que faz um calor insuportável e verões de praia e verões de serra e verões com escaldões e verões com bronzeados lindos de morrer e verões com caracóis e verões com cervejinhas e verões sem piadinha nenhuma e verões com aquele pôr do sol e verões que mais valia não terem acontecido e verões em que nos apaixonamos loucamente e verões que nem são bem verões... verões... verões... verões... verões
há verões que são assim um turbilhão.
há verões que são assim um turbilhão.
13.8.08
12.8.08
há dias III
6.8.08
relíquia...
...qualquer coisa, muito preciosa, que se guarda com carinho e faz parte de um passado.
...qualquer coisa que, em tempos, se viveu intensamente e quase se acreditou que podia alterar-nos o percurso de vida.
...qualquer coisa que se desenterra um dia e nos traz memórias de dias em cheio e nos embaraça por nos ser relíquia. mas que queremos que o continue a ser e que fique guardada no baú para lá irmos de vez em quando recordar as emoções de outras alturas.
aqui, uma das relíquias dos meus 12 anos, partilhada há poucos dias, quase com a sensação de que, sim, às vezes o tempo volta atrás.
24.7.08
idiomas
sempre me adaptei muito bem às línguas dos países que visito.
hoje, em barcelona, consegui a verdadeira frase poliglota...
"yo hablo italiano, español e português tuto mistorato."
o mais importante é que me perceberam.
hoje, em barcelona, consegui a verdadeira frase poliglota...
"yo hablo italiano, español e português tuto mistorato."
o mais importante é que me perceberam.
22.7.08
17.7.08
É loucura
É loucura estarmos todos
Juntos na mesma fogueira que arde
É loucura a ternura, este sonho, esta tarde
É loucura estarmos juntos
Todos à volta da mesma alegria
É loucura a ternura, esta noite, este dia
Ninguém sabe o que o sonho alcança
Quando se vive amando
Ninguém sabe o que sonha a criança
Quando sorri sonhando
Quem nos dera que nunca surgisse
Esta tristeza de hoje
Quem nos dera que nunca fugisse
Esta fogueira que foge
Algum dia na vida amanhã
Quando a rotina venha
Não nos falte esta chama, esta irmã
Esta fogueira, esta lenha.
Hélder Ribeiro
É loucura estarmos todos
Juntos na mesma fogueira que arde
É loucura a ternura, este sonho, esta tarde
É loucura estarmos juntos
Todos à volta da mesma alegria
É loucura a ternura, esta noite, este dia
Ninguém sabe o que o sonho alcança
Quando se vive amando
Ninguém sabe o que sonha a criança
Quando sorri sonhando
Quem nos dera que nunca surgisse
Esta tristeza de hoje
Quem nos dera que nunca fugisse
Esta fogueira que foge
Algum dia na vida amanhã
Quando a rotina venha
Não nos falte esta chama, esta irmã
Esta fogueira, esta lenha.
Hélder Ribeiro
16.7.08
1.7.08
dos que moram na rua
tenho desde sempre uma relação indefinida com as pessoas que moram na rua. um misto de curiosidade pela vida que têm e de necessidade de me manter afastada. há umas que me suscitam uma atenção especial e que ficam gravadas com algum carinho. que se tornam um equilíbrio no meu dia-a-dia e se transformam em parte integante da minha passagem pelas ruas quotidianas.
em aveiro, havia um senhor que anunciava o fim do mês e arranjava aí a solução para o seu pedido de esmola. eu e o meu pai fartávamo-nos de rir quando ele vinha com a sua lengalenga "é fim do mês, está na hora de pagar." fazia-se acompanhar de um caderno e um lápis na orelha que passava para a mão durante a lengalenga. vestia-se com um velho blazer e uma gravata e era careca. ele fazia andar o tempo. ele trazia a rotina do tempo.
em évora, havia um senhor de longas barbas brancas que falava sozinho e lia o jornal na praça do giraldo. alguns dos meus amigos cumprimentavam-no como amigo também. era sempre gentil com as pessoas e tinha um aspecto bonito.
em lisboa, perto da sé havia um rapaz/senhor que parecia um homem estátua. estava sempre sentado em cima de cartões velhos, vestia umas calças puxadas até cima com suspensórios e cobria a cabeça com chapéus, gorros e boinas. estava sempre imóvel, com uma perna dobrada na qual encostava o cotovelo para poder esticar a mão em forma de pedido. o seu olhar estava sempre mão. e eu via-o sempre nesta posição.
hoje, vi um novo homem. destes que me despertam a curiosidade.
num dia de calor como o de hoje, ele estava deitado na entrada de um prédio, vestido com manga comprida e cobertores a tapá-lo. tinha à beira da sua cabeça uma pilha de livros antigos e os olhos presos ao livro que tinha aberto nas mãos. estava muito sujo, o que normalmente me leva a não conseguir reparar nos pormenores, mas os livros fizeram demorar a minha passagem. fiquei curiosa com os títulos. espero que ele lá esteja quando lá voltar para ver de soslaio os títulos.
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