1.7.08

dos que moram na rua

tenho desde sempre uma relação indefinida com as pessoas que moram na rua. um misto de curiosidade pela vida que têm e de necessidade de me manter afastada. há umas que me suscitam uma atenção especial e que ficam gravadas com algum carinho. que se tornam um equilíbrio no meu dia-a-dia e se transformam em parte integante da minha passagem pelas ruas quotidianas.
em aveiro, havia um senhor que anunciava o fim do mês e arranjava aí a solução para o seu pedido de esmola. eu e o meu pai fartávamo-nos de rir quando ele vinha com a sua lengalenga "é fim do mês, está na hora de pagar." fazia-se acompanhar de um caderno e um lápis na orelha que passava para a mão durante a lengalenga. vestia-se com um velho blazer e uma gravata e era careca. ele fazia andar o tempo. ele trazia a rotina do tempo.
em évora, havia um senhor de longas barbas brancas que falava sozinho e lia o jornal na praça do giraldo. alguns dos meus amigos cumprimentavam-no como amigo também. era sempre gentil com as pessoas e tinha um aspecto bonito.
em lisboa, perto da sé havia um rapaz/senhor que parecia um homem estátua. estava sempre sentado em cima de cartões velhos, vestia umas calças puxadas até cima com suspensórios e cobria a cabeça com chapéus, gorros e boinas. estava sempre imóvel, com uma perna dobrada na qual encostava o cotovelo para poder esticar a mão em forma de pedido. o seu olhar estava sempre mão. e eu via-o sempre nesta posição.
hoje, vi um novo homem. destes que me despertam a curiosidade.
num dia de calor como o de hoje, ele estava deitado na entrada de um prédio, vestido com manga comprida e cobertores a tapá-lo. tinha à beira da sua cabeça uma pilha de livros antigos e os olhos presos ao livro que tinha aberto nas mãos. estava muito sujo, o que normalmente me leva a não conseguir reparar nos pormenores, mas os livros fizeram demorar a minha passagem. fiquei curiosa com os títulos. espero que ele lá esteja quando lá voltar para ver de soslaio os títulos.

30.6.08

fins de tarde

servem para aconchegarmos o dia.
para termos tempo de parar e pensar.
para revivermos o que já passou, saboreando ou deixando na beirinha do prato, e projectarmos o que queremos viver.
criam uma abertura para nos encontrarmos e nos falarmos.
muitas vezes, servem para termos ideias luminosas, curiosas, engenhosas.
servem para o silêncio e a contemplação.
os fins de tarde são imprescindíveis e devem ser tratados com bastante respeito e atenção.
desprezar um fim de tarde é um erro desmedido.
podemos até pensar que o recuperamos no dia seguinte, mas o que passou desprezado está já perdido e é irrecuperável.

os fins de tarde podem e devem ser vividos de diversas formas.
não há regras.
cada um constrói os seus próprios fins de tarde.
a única obrigatoriedade dos fins de tarde
é aproveitar para se
estar de bem com a vida.

21.6.08

"a pessoa de que vocês falam nem pareço ser eu. porque me fica tanto por fazer. sei que outros o poderão fazer, mas eu deixo por fazer. estou-vos muito agradecida pelas palavras."
Matilde Rosa Araújo, ontem, numa homenagem na SPA, ao fazer 87 anos.

18.6.08


estou aqui
já estava aqui
e vou estar aqui

às vezes vou ali
outras vezes acolá
saio
ando por aí


estou aqui a andar por aí



11.6.08

nos dias em que o cansaço nos vence, em que as nossas palavras saem atordoadas, quase mudas, em que parece que ninguém compreendeu as nossas intenções e definitivamente nos sentimos no sítio errado, comamos caracóis com os amigos e brindemos às nossas vitórias pessoais. digamos alguns palavrões para amainar as zangas, falemos da vitória de portugal e de como a metereologia é falível. lutemos para que o cansaço desapareça e a cabeça se sinta assim mais desanuviada.
há dias do caraças!


29.5.08

não-primavera

quando ainda dormimos com um cobertor por cima do edredon, não estamos em plena primavera, pois não?
quando o frio nos demove de ir à feira do livro, não estamos em plena primavera, pois não?
quando as t-shirts ainda se escondem debaixo de uma camisolinha e um blusão, não estamos em plena primavera, pois não?
quando não sentimos o calor a tocar-nos a pele um dia inteiro durante quinze dias, não estamos em plena primavera, pois não?
quando abrimos a persiana de manhã e está um sol bonito e saímos à rua e já enublou, não estamos em plena primavera, pois não?
quando não conseguimos usufruir das esplanadas, dos jardins e dos miradouros, não estamos em plena primavera, pois não?
quando os corpos ainda se aconchegam a si próprios ao caminhar, não estamos na primavera, pois não?
quando nos começamos a aborrecer de estar em casa, não estamos em plena primavera, pois não?

["não, amiga. este ano a primavera existe aos bocadinhos." ]

que aborrecimento.

25.5.08

medo do escuro


sempre tive um medo terrível do escuro. no escuro viviam mãos atrás de paredes ou debaixo de camas, prontas a agarrar-me nas pernas e nos braços, mal sentissem a minha passagem. no escuro viviam sons irreconhecíveis que se transformavam em monstros ameaçadores. no escuro vivia um desconhecido muito grande que me assustava e que eu tentava nunca conhecer. tinha dele uma imagem tenebrosa.
o meu corpo ganhava uma vida própria. ou corria desalmadamente em direcção à luz e só aí podia respirar ou tornava-se rígido incapaz de se movimentar.
havia dois pequenos momentos que se tornavam para mim uma verdadeira aventura contra o medo. subir ao sótão para arrumar os brinquedos que tinha deixado desarrumados do dia e ir despejar os restos do jantar no galinheiro. eram para mim verdadeiras lutas contra a fantasia. as escadas tornavam-se gigantes. demorava muito tempo a subi-las, com o coração numa corrida louca, as pernas tremeliques e os olhos presos naquele rectângulo preto que me esperava lá em cima. os olhos não podiam sair dali não fosse eu ser apanhada de surpresa pelo tal desconhecido ou pelos seus cúmplices. quando lá chegava o corpo acelarava os movimentos e a mão precipitava-se para o interruptor. com luz era diferente. o medo ainda tinha espaço, mas eu podia ver tudo. quando acabava a tarefa de arrumação, apagava as luzes e corria a toda a velocidade, escadas abaixo, até encontrar alguém. a minha professora da escola dizia que eu devia era subir as escadas a fazer muito barulho com os pés, para assustar o escuro e os monstros que lá morassem. com o medo, iam embora de certeza. tentei esta estratégia algumas vezes, mas a verdade é que o medo continuava a sobrepôr-se à certeza de que eles iriam embora com o som dos meus pés. já com as galinhas era diferente. havia apenas uma luz no pátio e, para chegar ao galinheiro, tinha de atravessar o quintal, cheio de frutas e hortaliças prontas a atacar-me ou a esconder animais carnívoros esfaimados. nesse percurso corria. corria o mais depressa que conseguia. tenho ideia de sempre ter desempenhado mal esta tarefa. a cabeça quase não pensava nela porque estava ocupada a fazer correr o corpo completamente imerso no medo do escuro.

a luz do corredor ficou acesa até muito tarde para eu dormir e, quando ganhei vergonha, passei a garantir que não era a última a deitar-me para, ao menos, sentir que havia luz lá fora.
no quarto, à noite, deixava apenas o nariz e os olhos de fora dos cobertores. e ficava muito quieta quando um ruído disparava o medo em mim. a respiração parava, mexia os olhos de um lado para o outro para tentar ver na escuridão e o corpo ficava incrivelmente semelhante a uma pedra.


eram sensações tão fortes. todo o meu corpo e a minha cabeça se concentravam no escuro, nas imensas possibilidades assustadoras que podiam aparecer repentinamente. tenho uma memória muito física das corridas e do som do coração.


curiosamente o medo não cresceu como eu. foi-se tornando pequenino. foi deixando de inventar monstros e outros seres que tais. foi perdendo a sua força. e eu fui criando novas formas de o pôr a correr a ele.

mas sei que ele ainda cá mora e que está sempre pronto a fazer-me correr ou petrificar-me.
(ontem acendi todas a luzes de casa)

17.5.08

De Paris com Amor

"Não conto o tempo, não discuto o tempo, não registo o tempo, não brinco com o tempo, não abraço o tempo, não contesto o tempo, não trato mal o tempo, não diabolizo o tempo. Agarro o tempo que o tempo me oferece, falo no tempo que faço meu, dialogo com os tempos que agendo, não escolho tempos, ofereço-me ao tempo para que o tempo me permita ter tempo para disponibilizar o tempo necessário para enviar esta mensagem e outras. Espero que a recebas dentro do teu tempo. Que tal o tempo por aí?"

Alcino Cartaxo, 16 de Maio de 2008
quem sai aos seus não degenera

13.5.08

Eusébio

Não sei quase nada sobre o Eusébio nem sobre a sua vida futebolística. Tenho imagens dele a preto e branco a correr pelo campo e de uma toalha e um zumbido nos ouvidos de que ele foi grande jogador e é grande benfiquista. Fora isso, não tenho uma opinião formada sobre ele nesta área.
No entanto, hoje, numa grande fila de trânsito, daquelas em que é difícil uma pessoa encaixar o seu carro se não for bruta, tive o privilégio de ter sido convidada a entrar na fila pelo próprio. Ele mesmo, Eusébio, ao fim de alguns carros de espera e algumas tentativas, assentiu com a cabeça a minha entrada. Descobri o Eusébio condutor. A minha opinião sobre este Eusébio é bem mais segura que a do futebolista. Sim, ele é um bom automobilista de cidade.

10.5.08

bolinhos da sorte

"Follow your aim, self-consciousness will show you how."
"Others will provide you a wonderful journey."

6.5.08

experiência de desculpa

peço a todos os leitores as minhas desculpas pelo amarelo e o bold repentinos do último post.
foi experiência. só agora a testei. negativo!

5.5.08

de vez em quando apetece-me chover.
quando as nuvens são pesadas e não há meio de abrirem definitivamente, fica aquele tempo trovoada dentro de mim e, então, apetece-me mesmo chover. apetece-me chover para mandar as nuvens embora. apetece-me chover para sentir o cheiro da terra molhada e para a natureza desatar a crescer. apetece-me chover para as ideias serem mais claras à luz do sol e a cabeça ter mais espaço para mais ideias. apetece-me chover para desanuviar o céu e eu deixar de me sentir abafada.
choverei?

25.4.08

somos tantos e às tantas de tantos sermos não conseguimos entender-nos.

24.4.08

tempálmoçar

há palavras que se unem para criar outras palavras, em que o mesmo sentido continua a existir num outro som. é fabuloso. dá conversas maravilhosas e serões de puro riso.

ele não tem tempálmoçar, coitado.
e elas as duas riem-se.

18.4.08

carta

querida amiga,

vejo que tens o quarto arrumado há duas semanas, que tens feito a cama todos os dias e não fica muita roupa acumulada lá no cantinho. também já reparei que não tens deixado os sapatos debaixo da cama, nem as meias por dobrar - e bem sei que não gostas nada desta tarefa.
estou muito orgulhosa.
era de continuar, se conseguisses resistir ao teu gosto pelo caos e à tua preguiça para a arrumação doméstica.

parabéns!

17.4.08

chove

porque é que sempre que chove a cântaros há pessoas a dizer que é o fim do mundo?
chove sim. chove muito. chove a bandeiras despregadas. chove como poucos. está uma chuva nada molha tolos. molha todos. molha mesmo. de certeza que toda a gente hoje se molhou - um bocadinho que fosse. não pára. começou às três e meia da tarde e ainda não parou. e não vai parar segundo o instituto de meterologia. também está vento. enerva um bocado. tentar caminhar e segurar no guarda-chuva e proteger um amigo e lidar com a calçada portuguesa e os jactos que nos atacam as pernas das poças onde deslizam os condutores. e conduzir também é enervante porque os vidros embaciam e os limpa-pára-brisas não dão vazão aos litros de água que lhes caem em cima e molha-se sem querer o peão que também já lida com a sua enervação....
mas, vá lá ver, o mundo não vai acabar. não é o fim do mundo. é só um dia chato. um dia de estar em casa - ainda que se não possa. "em abril, águas mil", não é? não sabemos já todos isso?
voltemos a gostar de chapinhar nas poças e é só chegar a casa e tomar um banho quente.

15.4.08

"é com o tempo que os tempos se encontram"

13.4.08

buscas

busca-se a simplicidade. busca-se a descomplicação. busca-se o simples prazer de ir indo. de ver e cheirar e deixar o mundo entrar e percorrer o corpo interior. busca-se a verdade. a mais pura honestidade connosco próprios. busca-se as soleiras das portas e as varandas com vista desafogada para conversas sobre a vida. sobre a vida mundana e a espiritual. busca-se o outro. busca-se a partilha da vida. busca-se a calma no fim do dia. busca-se o caminho diferente todos os dias. busca-se o amor. busca-se um lugar ao sol no mundo, onde chova de vez em quando para se sentir o cheiro da terra molhada.

9.4.08

E por vezes


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira
E por vezes as noites duram meses...

6.4.08

"A viagem na cabeça"

"Do meu quarto andar sobre o infinito, no plausível íntimo da tarde que acontece, à janela para o começo das estrelas, meus sonhos vão por acordo de ritmo com a distância exposta para viagens aos países incógnitos, ou supostos, ou somente impossíveis."

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

2.4.08

estendais



dos estendais que via da janela da cozinha da casa do alto de santo amaro era este que mais me surpreendia. estava sempre arrumado. cromaticamente organizado. sempre bonito. as roupas sempre com um aspecto muito claro, muito calmo...
aquele estendal trazia-me uma sensação boa.
as pessoas que passeavam na marquise eram para mim uma curiosidade. sabia pelas roupas que tinham um bebé em casa. sabia pelas cores que costumavam usar que gostavam muito do branco. sabia que escolhiam luzes amarelas para os candeeiros, que, à noite, davam aquele tom quentinho à marquise.

sempre reparei muito nos estendais das casas. mas este foi aquele que mais encanto me causou.

ontem fechei a porta desta casa onde já não vivia há um ano. deixei também o estendal.

28.3.08

amizades eternas


até há bem pouco tempo as amizades pareciam para sempre. aliás, muitas coisas no mundo e na vida pareciam eternas. o mundo era imutável e as pessoas e as vidas não iam desaparecer ou transformar-se. podia eternamente contar que estariam ali à mão ou ao pé.
é uma grande descoberta, esta. o momento em que começamos a saber que os amigos vão indo embora e nós mesmos vamos querendo mundos diferentes.
a mim custou-me muito saber que, afinal, as pessoas morrem mesmo e nos desaparecem do dia-a-dia e já não lhes podemos ver o rosto ou ouvir a voz quando temos saudades delas. também me custou saber que a distância pode criar novos rumos e deixar de nos dar a oportunidade de visitar aqueles confortos que tínhamos em circunstâncias muito específicas. a clara consciência de que os momentos são mesmo únicos e irrepetíveis.

e, no entanto, ficam ainda amizades eternas.
há umas quantas que preservo e cuido com muito carinho. que por muitas voltas que o mundo dê, quero continuar a ter junto a mim. há outras que hão-de aparecer. guardo espaço para elas.

acho bonita esta ideia... de estarmos sempre a receber pessoas. as que vêm com malas, as que estão de passagem, as que deixam marcas, as que nunca mais voltam...

enchemo-no de pessoas. é incrível!

18.3.08

memórias corporais

são instantes em que o corpo vive ao de leve um bocadinho de uma história já vivida ou de um movimento já feito e se arrepia, se emociona, se deixa viver de novo o que estava arrumadinho ou esquecido. um misto de prazer e dor. às vezes, uma vontade louca de fixar o tempo e ficar nele o suficiente para saciar a saudade.

9.3.08

tempo

não sei se o tempo não me chega ou se sou eu que não chego para o tempo.

7.3.08

pessoas-parede

as pessoas-parede têm sempre um ar sisudo, cheio de certezas, e trazem consigo uma mala cheia de insultos e palavras ofensivas para manter a sua estrutura de pé. não me parecem muitos felizes, estas pessoas-parede. falta-lhes um coração a bater. apesar de serem pessoas, convencem-se a si próprias de que são mais parede. o resultado é uma amargura na voz, um corpo sempre hirto e uma constante insatisfação. têm alguns momentos de pessoa em que se deixam penetrar por momentos bonitos e podemos ver-lhes um sorriso. é aproveitá-lo. é raro.
(destesto estar com pessoas-parede. ter à força de conviver com elas e tentar criar projectos comuns.)

11.2.08

há dias II

há dias em que os segredos saem de dentro de nós e fazem pontes com os outros.
esses são os dias felizes de viver.

7.2.08

há dias

há dias em que os segredos rebentam no nosso coração.
esses são os dias difíceis de viver.

5.2.08

início da época balnear



dos vários sacos de praia e armários vieram os apetrechos para levar a cabo a primeira ida à praia do ano de 2008. éramos três. levávamos connosco o essencial: os fatos de banho, saco, as bolas insufláveis e o guarda sol. estávamos já morenos e, claro, providenciámos o primeiro escaldão, clássico de um primeiro dia de praia.
saímos já tarde e fartámo-nos de andar. na esplanada da praia estava vento e muito pouco espírito veraneante. descemos à baixa. no elevador de santa justa estava agora montado o ponto de vigia do nadador salvador. a praia do grémio, cheia de gente, fez-nos procurar a tão famosa escultura de areia do teatro dona maria. molhámos as mãos nas lagoazinhas do rossio. a água estava fria. subimos. agora começávamos a encontrar gente. muita gente. bruxas, dragonballs, travestis. todos tinham decidido vir à praia - muito mal vestidos para a ocasião. depois de uma passagem pela praia do bairro, fomos, finalmente, assentar arraiais na praia da bica. aí sim, estava uma "granda onda". mergulhámos no mar de gente do bar da esquina - do qual não me lembro do nome - e viemos para as toalhas. não fora o carro do lixo, tínhamos ali ficado mais tempo.

os primeiros dias de praia do ano são inesquecíveis.

[ontem a praia estava mesmo lá e toda a cidade tinha ganho uma nova dimensão.]

2.2.08

aos reencontros

29 anos é uma idade estranha.

[a própria idade é uma coisa estranha. embora não signifique quase nada na vida diária, há momentos em que a sentimos na cabeça, no corpo e nos olhos das outras pessoas.]

29...
que número sem sentimento.

os 28 eram redondos e enfadonhos e logo à partida traziam esta minha atenção sobre o número, que não me deu espaço para pensar no que poderiam significar como idade da vida.
os 27 eram ímpar. agradava-me. tinham um significado de mudança. foi a primeira vez que pensei - mesmo que não tivesse sentido - que "agora estás mesmo mais perto dos 30". a primeira vez que me fizeram este comentário. que ouvi falar dos 30 como uma realidade a viver a curto prazo. que falei sobre o que isso é. as várias perpectivas de quem já viveu, de quem está para viver, de quem nem quer saber.
daí para trás há grandes números com significado cultural, com significado pessoal, com significado na vida...

[25. foi a minha idade preferida. idade de grandes felicidades.]

agora os 29...
intrigaram-me desde o princípio. o facto de ser ímpar agradava-me mais uma vez. mas... havia qualquer coisa de espera. de suspenso. de respiração concentrada. de procura tímida de um sentido. já não se está muito afastado dos 30, mas ainda não se chegou lá.

(...)

29. a idade dos reencontros.
era este o sentido que andava escondido para os meus 29 anos.

têm vindo pessoas, lá do fundinho do tempo, trazer-me à memória momentos esquecidos, tirar do fundo das gavetas aqueles pedacinhos de mim que guardei com muito carinho, mostrar-me como estou crescida, como mudei e não mudei.

antes dos 30, reencontrar-me no reencontro com os outros. recolocar-me na vida.
parar. respirar. olhar. pensar. continuar.